Lula não morreu

Atualizado: 9 de Mai de 2019

por Ricardo Henrique Salles* e Raul Milliet Filho


Lincoln, certa vez, teria dito: pode-se enganar poucos por todo o tempo, muitos por pouco tempo, mas não se pode enganar todos por todo o tempo". Pode-se transpor isso para a tentativa, cada vez mais frustrada, de calar Lula. Sua palavra, mesmo a ausência dela, é mais clara e alta. Lula tornou-se maior. Maior que o PT, maior que ele mesmo. É o símbolo e o catalisador da resistência democrática. Por isso foi preso, por isso querem cal-lo. Finalmente entrevistado, ele nos chamou para o debate e para a defesa da democracia. A repercussão foi enorme e será cada vez maior. A Rede Globo ignorou. O mesmo fizeram a Record, a Rede TV e o SBT, na entrevista recém-concedida por Lula a Kennedy Alencar. Já era de se esperar. Outras lideranças e partidos de esquerda não se pronunciaram e não repercutiram. Cometeram um grande erro. Pegaram carona na canoa furada da Globo e das demais emissoras. Quanto antes perceberem seu equívoco, melhor para eles e, principalmente, melhor para a luta democrática.



*Ricardo Henrique Salles é doutor em História, professor da Unirio, especialista em Escravidão e Segundo reinado, autor de diversos livros, dentre os quais destacamos o clássico "Nostalgia Imperial".









A entrevista de Lula


por André Pereira Neto*


A entrevista inicia-se com o pronunciamento do ex-presidente revelando com detalhes o papel que a Rede Globo desempenhou no Golpe que derrubou a ex-presidente Dilma e no movimento que levou a condenação, sem prova, de Lula. Mais do que isso, ele revelou o papel que este instrumento de comunicação desempenhou na transformação de Lula em ladrão e no PT no partido de meliantes. Não bastava tirar Dilma do poder. Era necessário tirar Lula do jogo político. Silenciá-lo. Foi isso que eles fizeram durantes estes últimos sete  meses. Este silenciamento não basta em si. Ele expressa uma estratégia que encobre interesses econômicos muito mais importantes e poderosos que se manifestam na entrega da soberania nacional. Sobre o que Lula representa, Tereza Cruvinel, mencionada na entrevista, afirmou:


“Há uma clara semelhança entre o assassinato político de JK pela ditadura e a caçada a Lula para abrir caminho a uma troca de guarda no poder. Para colocar um fim à ordem política instaurada pelo PT com a chegada de Lula à presidência em 2002 é preciso acabar não apenas com a ideia de que os governos petistas promoveram os mais pobres à cidadania, reduziram a desigualdade, resgataram milhões da miséria e mitigaram, com políticas afirmativas a nossa dívida histórica para com os negros e afrodescendentes. É preciso apagar a ideia de que a Era Lula produziu um invejável ciclo de crescimento e instaurou, com Celso Amorim, uma política externa altiva que garantiu ao Brasil uma projeção internacional sem precedentes. Não basta também apenas a desqualificação eleitoral do próprio PT, por erros cometidos e por erros que são do sistema político. É preciso destruir o mito projetado por estas mudanças, “o mito Lula”.


Agora pudemos, finalmente, ouvir e ver Lula falar. Neste momento o mesmo sistema de comunicação age como se nada tivesse ocorrido. Age como se Lula estivesse morto. Na verdade esta é a vontade mais sincera que eles têm. Na impossibilidade de fazer isso concretamente, fazem simbolicamente.


Abaixo, a íntegra da entrevista de Lula, em 26 de abril de 2019, aos jornalistas Monica Bergamo (Folha de S. Paulo) e Florestan Fernandes (El País). Grifamos que a Folha de S. Paulo censurou a primeira parte.






*André Pereira Neto é graduado em História pela PUC-RJ, Mestre em História – Universite de Paris III (Sorbonne-Nouvelle), Doutor em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Pós-Doutorado em Sociologia da Saúde pela Universidade da Califórnia, San Francisco. É professor credenciado do Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde oferecido pelo Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict), da Fundação Oswaldo Cruz. Desenvolve pesquisa sobre o impacto da internet na relação médico-paciente e sobre avaliação de qualidade de informação em sites de saúde.





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Deixa Falar: Criação e Edição de Raul Milliet Filho

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