• Marcos Silva

Marcos Silva apresenta a resenha do livro História da URSS - Uma Introdução de Lincoln Secco

Marcos Silva apresenta a resenha do livro História da URSS - Uma Introdução de Lincoln Secco lançado por Maria Antônia Edições.


por Marcos Silva*


História da URSS - Uma Introdução de Lincoln Secco lançado por Maria Antônia Edições.

Esse pequeno volume, a partir de fontes de época e bibliografia em português, espanhol, francês inglês e italiano, retoma os motes de Revolução e Socialismo para lembrar que, entre conquistas e perdas, a URSS continua a ser uma referência incontornável na História do século XX. E que sua História não se restringe à desagregação, ao contrário do que a Cultura Histórica da mídia parece querer reforçar, numa perspectiva imediatista de desfecho sem percurso.


Ao produzir fazeres e frustrações, a URSS foi um marco para Welfare State (parcial resposta capitalista a seus desafios, sem esquecer as reivindicações de expressivos movimentos sociais), junto com guerras quentes e frias, partidos de diferentes perfis, debates universitários e jornalísticos... Estamos diante de uma História que se diferencia de “O que tinha de ser” (título e verso de uma canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes que sintetiza uma concepção quase fatalista da sociedade), uma História que se fez a partir de sujeitos sociais humanos, a se reinventarem naquelas experiências mesmas.


Secco apresenta diálogos entre ação das bases e direções políticas na conjuntura de 1917 e depois, evita ficar restrito a um desses polos. Soldados, empresários, operários, políticos radicais e elites russas se enfrentam, tentam caminhos, constroem e perdem poderes.


A Revolução de Outubro se consolidou e começou a excluir alternativas partidárias de esquerda, inclusive a oposição interna no Partido Comunista, virtual extinção de partidos pois o único não é mais parte de nada (sobre o vazio de eleições nesse mundo, SECCO, p 86). Não é função do historiador agir como conselheiro retrospectivo dos sujeitos que ele estuda, mas pesa, em seu trabalho, avaliar potenciais e responsabilidades nos encaminhamentos discutidos. Aquela revolução parece ter se tornado mais uma ditadura do partido único que uma ditadura de trabalhadores, sob o pressuposto de que tal partido era representante de quem trabalhava. Para o historiador, isso é um problema de conhecimento, não um dado.


Embora assinale o baixo percentual de operários na população do Império Russo, Lincoln compara o número de greves ali com movimentos similares em Alemanha, França, Inglaterra e Itália, aponta maior ocorrência naquele primeiro espaço (SECCO, p 16). E indica a importante presença de operários e soldados nas duas Revoluções russas de 1917 (fevereiro e outubro), quando reforçaram a liderança de Vladimir Lênin e o desfecho da segunda revolução – tomada do poder sem dependência em relação a setores burgueses e aristocráticos do Império.


E depois dessa tomada? Alexandra Kollontai e outros comunistas, na Oposição Operária do PCURSS, debateram controle dos trabalhadores sobre o processo produtivo mas esse núcleo foi neutralizado sob Lênin (KOLLONTAI, Alexandra. A oposição operária. Porto: Afrontamento, 1977). Os anarquistas e comunistas que se diferenciavam da linha partidária dominante, ao redor de Nestor Makhno (Ucrânia, 1917/1920) e em Kronstadt (1921), foram derrotados e silenciados. Lincoln caracteriza os últimos grupos como situados à esquerda dos bolcheviques, sem explicitar mais essa avaliação (SECCO, pp 33 e 108). E registra a perda de vigor da produção artística soviética, com vanguardas toleradas sob Lênin e desqualificadas a partir da ascensão de Josef Stalin, o que atingiu nomes tão expressivos quanto Vladimir Mayakovsky e Sergei Eisenstein, além de apagar a produção de Desenho Industrial, de grande peso para artes e indústria, inclusive produção de tratores (a importante tese de Jair Diniz Miguel sobre artes na URSS dos anos 20 foi indicada na versão acadêmica mas já está disponível como e.book: MIGUEL, Jair Diniz. Arte, Ensino, Utopia e Revolução – Os ateliês artísticos Vkhutemas e Vkhutein [1920/1930]. Florianópolis: Editoria Em Debate, 2019).


A esperança de uma Revolução Operária mundial se perdeu (derrotas em várias tentativas na passagem dos anos 10 para a década seguinte) e a experiência soviética reiterou disciplina na fábrica e militarização do trabalho, centralização nas decisões. Com Stalin, a noção de Socialismo num só país se consolidou, associada à extrema centralização da Komintern (Internacional Comunista). Era o primado centralizador na URSS e no movimento comunista.


O livro evita as polarizações Lênin/Stalin/Leon Trotsky mas lembra que o segundo foi contemporâneo de governantes “que não eram moderados nem pacifistas” – Mannerheim (Finlândia), Antonescu (Romênia), Mussolini (Itália), Horthy (Hungria), Salazar (Portugal), Franco (Espanha) e Hitler (Alemanha) (SECCO, p 62). Faltou incluir Winston Churchill (Grã-Bretanha) na lista e lamentar que se fez uma Revolução na Rússia apenas para ter um líder comparável a esses tristes nomes. Depois, o modelo stalinista (expurgos, eliminações de oponentes, extrema centralização) seria implantado nas repúblicas socialistas do pós-guerra.


Lincoln considera a possibilidade de Stalin ter sido “grande líder e déspota assassino” (SECCO, p 69) mas salienta a necessidade de registrar responsabilidades coletivas naquele processo. Junto com isso, aponta o refluxo revolucionário em escala mundial desde os anos 30. A Internacional Comunista é caracterizada inicialmente como referência para a Revolução mundial e depois reduzida a rede de informações para a URSS.


Definida uma ortodoxia marxista-leninista sob controle de Stalin e seus auxiliares, valeria a pena relembrar a multiplicidade de debates que remetiam a Marx e não se submeteram àquele filtro, evocando conselhos e outras práticas organizativas de trabalhadores em diferentes países, como se observa, dentre outras fontes, na coletânea: TRAGTENBERG, Maurício (Org.). Marxismo heteroxo. São Paulo: Brasiliense, 1981.


A reconfiguração dos países europeus designados como socialistas, ao se afastarem da URSS e adotarem plenamente práticas capitalistas, foi caracterizada como “As Revoluções de 1989”, expressão usada para caracterizar uma mudança completa. Em sua diversidade, destacam-se o encaminhamento “pelo alto”, a demanda por bens de consumo e o crescente espaço para críticas, traduzidos em restauração capitalista que levou até a práticas neofascistas (Sérvia etc.): “Aquela mudança não emancipou a classe trabalhadora. Ao contrário, ela se tornou livre como os pássaros, mas para escolher seus exploradores.” (SECCO, 103).


Essa perturbadora conclusão é um convite a pensar sobre o teor daquele Socialismo, que impediu a formação de trabalhadores capazes de defenderem seus próprios interesses, seus talvez poderes! Ela é uma terrível evidência de despoder dos trabalhadores naquele universo, apesar de conquistas em Saúde, Educação e Moradia, talvez impossíveis no Capitalismo reencontrado. A opção pela perda não foi deles mas também não conseguiram lutar contra isso. O começo revolucionário bolchevique, com trabalhadores sem autonomia no local de produção, desdobrou-se na formação de trabalhadores sem poderes, adequados ao Capitalismo, enfim (re)atingido. A Revolução anti-capitalista foi uma etapa preparatória para nova era do Capitalismo?


O debate sobre o fim da URSS pormenoriza o processo de (re)adesão ao Capitalismo, lembra que a Revolução de 1917 manteve os trabalhadores sem controle sobre o processo produtivo (SECCO, 107); a população urbana conheceu alguma melhoria no padrão de vida e Stalin chegou a declarar que “a vida ficou melhor, mais alegre” (citado em IDEM, pp 112/113). Valeria a pena consultar uma edição da revista Recherches, que comenta políticas nazi-fascistas, liberais e soviéticas voltadas para os trabalhadores (MURARD, Lion e ZYLBERMAN, Patrick [Orgs.]. Recherches [Le soldat du travail – Guerre, Fascisme et Taylorisme]. Paris: Recherches, 32/33, sep 1978).


A escassez de bens de consumo se manteve, a Guerra Fria foi motivo para grandes investimentos em artefatos bélicos, o poder decisório sobre a produção continuou a não ser dos trabalhadores.


A dissolução desse Socialismo se associou ao grande poder da burocracia para definir um processo de crise e transformação marcado pela ausência de participação popular. Os burocratas “Preferiram passar de comunistas a acionistas” (SECCO, p 126), comentário que parece um chiste mas tem conteúdo literal (controle dos antigos burocratas sobre as empresas privatizadas), desdobrado em Máfias que começaram a disputar aquele espaço e outras mazelas do “admirável mundo” nada novo… capitalista. E os trabalhadores, em cujo nome se anunciou a velha Revolução, foram plenamente metamorfoseados em consumidores com maior ou menor poder aquisitivo, como em qualquer sociedade capitalista.


Secco finaliza seu livro com a lembrança da Revolução Russa enquanto ameaça global ao Capitalismo e da URSS como responsável pela derrota do Nazifascismo. E reafirma a sobrevivência do Socialismo no futuro, portador de acerto de contas com a experiência soviética.


História da URSS – Uma Introdução desempenha bem seu papel de abrir debates, suscitar problemas de Conhecimento, desafiar invenções da Política. Seu caráter panorâmico se desdobra em gigantesca carga de informações, à espera de desmembramentos interpretativos e mais articulações sobre tal experiência social desmobilizadora, associada a um Estado onipresente e a sua burocracia tão poderosa. A saída para os burocratas foi a privatização dos meios de produção. Uma saída para os trabalhadores será o fortalecimento de seus poderes associativos e decisórios?


Diante dessa URSS, restam outras palavras e outros fazeres que não se limitem a sentimentos de fascínio, horror ou silêncios.



PALAVRAS-CHAVE

URSS – Revolução russa – Josef Stalin – Perestroika - Colapso do bloco comunista.


KEYWORDS

USSR – Russian Revolution – Josef Stalin – Perestroika – Collapse of communist bloc.


Marcos Silva: Doutor em História, Professor titular na FFLCH/USP. Publicou individualmente, dentre outros livros, “Prazer e poder do Amigo da Onça” (Paz e Terra, 1989). Pesquisa caricaturas, quadrinhos, literatura e ensino de História. Organizou diversos livros, dentre os quais “Dicionário crítico Nelson Werneck Sodré”. Nasceu em Natal, RN, e vive em São Paulo, SP.

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