Paralelas III ou diário de uma grande crise

Atualizado: 9 de Mai de 2019

por Raul Milliet Filho*


Logo após a eleição de Bolsonaro para a Presidência da República, julguei conveniente, antes mesmo de sua posse, iniciar um passo a passo do que está atingindo o nosso país. Alertava em maiúsculas que diminuir e ironizar Bolsonaro não seria melhor saída. Recorrendo mais uma vez a Gramsci: “A tendência a diminuir o adversário ... é um documento da inferioridade de quem se deixa possuir por ela”. Disse, aqui mesmo no Deixa Falar, que Bolsonaro e sua equipe têm um largo respaldo de pelo menos 80% do PIB brasileiro, das classes dominantes e hegemônicas nacionais e desconhecer isto é um equívoco que pode levar a estratégias políticas equivocadas.A formação de uma frente ampla e sólida, reunindo o campo democrático e progressista da sociedade, tal como foi costurada durante a ditadura civil-militar, impõe-se na atual conjuntura e, é necessário reconhecer que o pensamento de direita, neoliberal, alcançou a hegemonia em nosso país desde o Consenso de Washington de 1990. O atual governo lembra muito um partido alto de má qualidade ou um hip-hop indigente. Mas por favor, em nome dos grandes compositores de nossa MPB só aqueles de má qualidade. É preciso deixar claro que as escaramuças de Paulo Guedes e Sérgio Moro representam as pontas de lança da ultradireita que dominam o atual governo.

Não vamos confundir o novo Ministro da Educação, Abraham Weintraub, com um bom partido alto. Além de ser um Ricardo Vélez sem sotaque, é muito pior. Ensaia cortes que, efetivados, inviabilizariam o funcionamento das universidades públicas federais. A cada dia Weintraub joga no ventilador mais uma ideia descabida que não merece atenção, embora gere grande preocupação. Será que o novo titular do MEC vai insistir em alterar a interpretação do golpe de 64, reescrevendo, manchando os livros didáticos? (com uma interpretação preguiçosa e mecanicista?) Seria algo de muito parecido com o que Ernesto Araújo aprontou, conceituando o nazismo como um regime de esquerda.

Araújo, Weintraub, Damaris provocam estragos da mesma magnitude. E, o novo responsável pela reforma agrária de Bolsonaro, representante da UDR não se cansa de falar que vai acabar com as favelas rurais do MST; Nabhan Garcia, secretário de assuntos fundiários, afirma que não vai negociar com invasores de propriedades. Mas quem são os reais invasores? Afinal donatários e sesmeiros, escolhidos pela Coroa Portuguesa foram o que? Não custa rememorar que graças às pressões populares, desde 1985, foram assentadas 1 milhão e 100 mil famílias, cerca de 4 milhões de pessoas. Sem a CPT (Comissão Pastoral da Terra) e o MST nada disso teria sido possível. Esses dados contrastam com o que temos nos quatro primeiros meses do governo do capitão: apenas uma família assentada.

Podemos separar este governo em duas alas: a dos boquirrotos, falastrões e a dos ideólogos, executores de fato da apropriação das riquezas e do totalitarismo: Paulo Guedes e Sérgio Moro, além do neto de Roberto Campos, formam a linha de frente dos vendilhões da pátria com a destruição do capítulo da Seguridade Social, um dos mais importantes da Constituição de 1988.

Concluo esse texto citando o melhor de Gramsci, pela interpretação de Daniel Bensaid: “Só se pode prever a luta. Daí resulta uma noção da política como estratégia e uma noção do erro como risco inelutável da decisão”. Citação encontrada em um ótimo livro de Bensaid “Marx, o intempestivo”.

Creio que o elemento surpresa é uma tática de luta política aconselhável nas pegadas de Walter Benjamin, que utilizava suas citações de forma inesperada, objetivando causar grande surpresa aos seus leitores. Comparava as suas citações a salteadores de estradas desertas que planejavam atacar as diligências em trechos pouco requentados para roubar as convicções dos passageiros. Avisando desde logo que não estou propondo nenhuma guerra de movimento, nenhuma tática de guerrilha nem teoria do foco. Por fim, lendo alguns dirigentes de partidos políticos que jogam na oposição ocupada com brilho por Edu e Canhoteiro, fico irritado e deixo para depois uma crítica contundente às suas observações desconectadas da conjuntura.

Melhor nem comentar o desempenho de Paulo Guedes na comissão de Constituição de Justiça da Câmara dos Deputados. Sugiro ouvirem as falas da professora Júlia Lenzi Silva e de Roberto Requião.





Aos companheiros mais afoitos, ressalto que uma política econômica de corte keynesiano já seria um grande avanço em relação a Escola de Chicago, representada por Paulo Guedes. Com o apoio de cerca de 80% do PIB ao governo de Bolsonaro, cabe aos setores de esquerda alinhavarem uma frente de luta semelhante à que foi constituída durante a ditadura civil-militar, composta por amplos setores da sociedade. Está é a única forma coerente de oposição ao governo Bolsonaro. O rolo compressor não pode ser subestimado. As Organizações Globo, principalmente em sua TV aberta afirmam com convicção pseudocientífica que sem a reforma da previdência o país irá quebrar.


Comentam, criticando a ausência do Estado, do poder público, ao mesmo tempo que defendem o estado mínimo. As redes sociais e as manifestações de rua são o único caminho real de oposição.

*Raul Milliet Filho é criador e editor responsável deste site, mestre em História Política pela UERJ, doutor em História Social pela USP. Como professor, pesquisador e autor prioriza a cultura popular. Gestor de políticas sociais, idealizou e coordenou o Recriança, projeto de democratização esportiva para crianças e jovens. Autor de “Vida que segue: João Saldanha e as copas de 1966 e 1970” e do artigo “Eric Hobsbawm e o futebol”, dentre outros. Dirigiu os documentários: “Quem não faz, leva: as máximas e expressões do futebol brasileiro” e “A mulher no esporte brasileiro”.

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