• Henrique Brandão

Aldir, nunca haverá outro igual *

Atualizado: Jun 5




Por Henrique Brandão **


O que dizer de Aldir Blanc em um momento de profunda tristeza como esse? O bardo da Muda, na expressão de seu amigo Eduardo Goldemberg, merece todas homenagens e elogios do mundo, pelo grande poeta, letrista e cronista que foi. Como compositor, é dos maiores que a MPB já teve. Um monstro, gênio da palavra.

Todos nós somos “reféns” de Aldir. Quem nunca sambou um samba seu? Quem nunca dançou, com a ponta torturante de um band-aid no calcanhar e embalado por uísque com guaraná, um bolero dele? O cara não era profeta, longe disso.No entanto, quem há de discordar que seus versos em “Querelas do Brasil”, música do distante ano de 1978, em parceria com Maurício Tapajós, haveriam de soar tão atuais quando dizem que “O Brazil não merece o Brasil/ O Brazil, tá matando o Brasil”?

Aldir morreu de COVID-19, mas sua saúde, assim como a do país que ele tanto amava, foi sendo solapada pela tristeza galopante, coma velocidade de uma brigada de cavalaria, na descrença de que um horizonte mais generoso ainda fosse possível. O país preconizado pelo atual presidente psicopata, com sua perspectiva cada vez mais autoritária, está muito aquém do Brasil tão amado e cantado pelo poeta.

O Aldir mais conhecido de todos é o letrista de sucessos maravilhosos, tanto na parceira com João Bosco quanto com músicos do talento de Guinga, Moacyr Luz e Cristovão Bastos, entre outros, responsável por sucessos que qualquer um assobia fácil pelas ruas, entoa nas mesas dos bares ou ouve com frequência nas rodas de samba. É aquela música que o cidadão comum conhece, canta inteira, mas muitas vezes não sabe quem é o autor. Isso é privilégio de poucos, reservado somente aos maiores, escolhidos a dedo pelo que o destino lhe reservou. Coisa de Caymmi, Luiz Gonzaga, Noel, Vinícius...

Mas tem um outro Aldir, menos conhecido do público, que é tão talentoso quanto o letrista. É o cronista. Sua verve foi exercida, inicialmente, no Pasquim, semanário de humor de saudosa memória, onde jornalistas e colaboradores do quilate de Jaguar, Millôr, Ziraldo, Sergio Cabral, Ivan Lessa e Sergio Augusto esculachavam a ditadura. A colaboração profícua rendeu seu primeiro livro, “Rua dos Artistas e Arredores”, reunião das crônicas publicadas no tabloide. A primeira edição é de 1978.

A Rua dos Artistas, com este belo nome, fica em Vila Isabel. Aldir morou nela quando garoto, na casa dos avós. Fez daquele microcosmo do subúrbio carioca, a partir de suas lembranças e de sua perspicaz imaginação, crônicas que dialogam com o mundo, esteja você no Rio, Pequim ou Budapeste. Relendo-as, é impossível conter o riso. Os dramas, casos, personagens e apelidos de cada um, que vivem na fictícia, porém muito real, comunidade “vilaisabetana”, misturam grosseria, poesia e generosidade, na proporção exata que só Aldir sabia dosar. Como cronista, assim como letrista, também foi dos grandes, no nível de João do Rio, Lima Barreto, Sergio Porto.

Além do livro, as crônicas geraram um filhote. Foi do nome de um dos personagens de Aldir, o Esmeraldo “Simpatia é Quase Amor”, que, em 1984, leitor de seu livro, sugeri a um grupo de amigos o nome para um bloco de carnaval que pretendíamos fundar. Aldir acabou virando o patrono do bloco. Como era de seu feitio, sempre se esquivou das nossas inúmeras tentativas de homenageá-lo. Participou de alguns desfiles, sempre discretamente. Chegava sem avisar e ia para o meio da bateria tocar seu tamborim. Quando o descobríamos já era tarde, o bloco estava na rua.

Desde então, há 36 carnavais que, sob a benção de Aldir, o Simpatia desfila pela orla de Ipanema. Por ocasião do aniversário de 15 anos, gravamos um CD com todos os sambas cantados em nossos cortejos. Dessa vez, fruto de sua benevolência, quem prestou homenagem ao bloco foi o Aldir, ao gravar um depoimento que abre o CD. Dizele: “O bloco da minha mocidade foi o Bafo da Onça, de saudosa memória do Catumbi, Estácio e adjacências. Mas nem mesmo o Bafo, com suas rainhas e princesas de polução noturna, me deu emoção tão forte quanto o Simpatia é Quase Amor. Criei em livro o Simpatia para proteger a identidade de um primo do subúrbio (...). É bonito ver um primo da Zona Norte virar bloco na Zona Sul. Com este gesto simpático, saiu ganhando São Sebastião do Rio de Janeiro. No Simpatia, onde minhas filhas saíram pequenas, hoje, 15 anos depois, desfilam meus netos”. Esse depoimento enche a todos nós, fundadores e foliões do bloco, de imenso orgulho.

Segue em paz, Aldir.

* Artigo publicado originalmente na Revista Política Democrática OnLine, nº 19, maio de 2020, da Fundação Astrojildo Pereira



** Henrique Brandão nasceu no Rio, em 1960. É jornalista com atuação no mundo do cinema, do vídeo e da mídia impressa. Sua trajetória profissional é marcada por uma participação intensa na vida política da cidade. Mas, antes de tudo, Henrique é um carioca. Daqueles que têm adoração pelo Rio e que transitam da Zona Norte à Zona Sul com a mesma desenvoltura. Flamenguista apaixonado e rubro-negro emérito, foi dirigente do clube em duas ocasiões. É fundador do bloco Simpatia É Quase Amor. Autor do romance Coração Vagabundo (ed. Ponteio).


Aldir também era genial em aforismas. Colhi alguns no “Rua dos Artista e Arredores” (edição Mórula, 2016).


“Se você está pensando que o tijucano é um estado de espírito, aqui ó! O tijucano é um estado de sítio”

“Alto funcionário da Polícia Federal lembra a seus subordinados em Brasília: - o piso é a prova de fogo, o preso, não”

"Na inauguração do novo Distrito Policial, coube ao delegado dar o pontapé inicial”

“No Hipódromo da Gávea, um garanhão traçou uma égua, depois de uma... informação de cocheira”

“No Jardim Zoológico, o avestruz concretista, depois de uma bimbada, suspira: Pô, Ema...”

“Eu nunca marco derrota do meu time na Loteria. Me sinto um traidor”

“O amor tanto se mete a edredon, que acaba velha colcha de retalhos”

“Querido diário, hoje foi um dia incrível. Nem te conto”


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