Aos 44 minutos

um conto de Adriano Bidão

Charge de Zuca Sardan

Aos 44 minutos – um conto de Adriano Bidão

Sérgio era flamenguista. Não era fanático, mas seus olhos não desgrudavam da TV e ele sempre deixava claro que era rubro-negro antes de ser brasileiro. Não gostava de zombar quando o time adversário dos colegas de trabalho perdia. Dizia que respeitava a tristeza alheia.


Jamais discutiu por causa de futebol e não costumava dizer palavrões.


Sérgio gostava de dizer que o futebol era um esporte democrático e que dentro de campo não importava a raça, o que não era pouco num país em que o negro é discriminado veladamente. "É a única profissão em que o negro é respeitado", costumava dizer. Não gostava de ouvir a torcida xingando a mãe de jogador que dava um passe errado nem a do juiz que deixou de apitar um pênalti claro. Já seu colega de trabalho Gusmão era um gozador, gostava de chegar ao trabalho com a camisa do Vasco quando o time vencia. Sérgio nunca demonstrou sua chateação, levava na esportiva.


Levava tanto na esportiva que resolveu apostar no clássico Flamengo x Vasco de domingo.


– O Flamengo vai perder de 3 x 0, Sérgio – dizia Gusmão. – O atacante de vocês já não faz gol há três jogos. Vê se Adaílton é nome de atacante.


Eu aposto com você que vai ser 3 x 0. Se o Adaílton fizer um gol no Vasco eu visto a camisa do Flamengo e ainda canto o hino. O que acha, hein? Agora se não fizer nenhum gol, você é que vai vestir a camisa e cantar o hino do Vasco. Apostado?


Sérgio aceitou a aposta, embora tenha ficado tenso ao imaginar-se vestindo a camisa de outro time. E estranhou Gusmão não cogitar a hipótese de o Flamengo vencer. Adaílton era um atacante que viera das categorias de base do Flamengo. Fez seu primeiro jogo no início do Campeonato Carioca. Era um jogador talentoso, driblador, já fazia um bom tempo que o Flamengo não revelava uma "prata da casa" como ele. Adaílton era negro, tinha um porte físico avantajado. A torcida já começava a cobrar-lhe pela falta de gols. Muitos diziam que ele era muito pesado. O grande clássico de domingo seria a chance de Adaílton fazer as pazes com o gol e com a torcida. E, principalmente, de ajudar o Sérgio a ganhar a aposta.


Sozinho, no Maracanã, sentado na arquibancada, iria presenciar o terceiro clássico no ano, e, nos anteriores, o Flamengo ganhara. Ainda não entendia por que Gusmão não apostara na vitória do rubro-negro.


"Gusmão é muito chato e arrogante, ele não pode ganhar esta aposta!", pensava Sérgio. O jogo estava marcado para as 16 horas e faltavam apenas cinco minutos para o início. Os dois times já estavam em campo. De repente, o celular de Sérgio tocou. Era Gusmão.


– Fala aí, tá preparado pra segunda?


– E você está? – rebateu Sérgio.


– Rapaz, eu tô aqui na arquibancada. Tô muito tranquilo. Aconselho você a começar decorar o hino do Vasco.


– E você o do Mengão.


– Olha só, já vai começar o jogo. Presta atenção no Paulinho Peralta, os três gols serão dele. Se eu quisesse te sacanear mais, eu faria você, além de vestir, andar na rua com a camisa do Vascão. Hahaha! Mas a aposta vai ficar naquilo mesmo. Tô desligando, fui!


Sérgio riu da presunção de Gusmão. Começa o jogo. Sérgio escuta um torcedor na sua frente reclamando.


– Esse Adaílton deveria estar na reserva. Esse cara não joga nada!

Sérgio balança a cabeça de maneira negativa e pensa: "Calma aí, ele ainda é um garoto. Ainda vai trazer muita alegria para a gente". Os dois times precisam ganhar para alcançar a liderança do campeonato. Ambos estavam armados ofensivamente. Com certeza, o jogo não terminaria 0 x 0.


Lance para o Flamengo. A bola é lançada próxima à grande área para Adaílton. Ele ginga para cima do zagueiro adversário. O zagueiro do Vasco desarma Adaílton.


– Toca a bola! – grita o torcedor sentado à frente.


Sérgio lamenta em silêncio o lance. Até porque a jogada malfeita ajudou o contra-ataque do Vasco e a bola chegou ao pé de Paulinho Peralta, que a recebeu ainda fora da área e driblou o zagueiro. O goleiro do Flamengo saiu do gol, mas Paulinho Peralta tocou por cima. Gol do Vasco. O gol foi como um banho de água fria, mas Sérgio não se importou. "Clássico é assim mesmo. Daqui a pouco o Flamengo empata e vira", pensou. De repente o celular toca. Sérgio atende.


– Fala aí, gostou? Ele ainda vai fazer mais um. De falta. No primeiro tempo – grita Gusmão, desligando em seguida.


Sérgio não gostava de conversar durante o jogo, fosse em casa ou na arquibancada. Ficou chateado ao desligar o telefone. Colocou-o dentro do bolso sem tirar os olhos do campo. Já passava de 40 minutos do primeiro tempo. Paulinho Peralta infernizava a zaga do Flamengo. Corria o campo inteiro.


– Esse cara deve estar dopado, não é possível! – dizia o torcedor sentado à frente.


Sérgio já estava inquieto, suas pernas balançavam. O Flamengo quase não dera trabalho para o goleiro cruz-maltino. De repente, Adaílton recebe a bola no meio de campo.


– Toca a bola! Toca a bola! – grita o torcedor da frente.


O atacante rubro-negro tenta driblar Paulinho Peralta. Não dá certo.

Paulinho Peralta rouba-lhe a bola e se manda com ela. Adaílton corre atrás, acompanhando, e derruba Peralta perto da meia-lua da grande área.


Falta. O goleiro arruma a barreira. Carlos Paraná era o melhor cobrador de falta do Vasco, seu aproveitamento era de quase 100%. Daquela distância, para ele, era praticamente um pênalti. Ele já estava com a mão na cintura e próximo à bola. O juiz apitou e, de repente, Carlos Paraná toca a bola para o lado. Paulinho Peralta surge correndo e manda uma bomba, no ângulo do goleiro, que fez apenas golpe de vista. Placar do primeiro tempo: Vasco 2 x 0 Flamengo. Alguns torcedores já pensavam em ir embora.


– Vai ser goleada, vai ser goleada! – diz o torcedor sentado à frente.


Sérgio permanece sentado, coçando a cabeça. O telefone toca.


– Fala aí, rapaz. Falta mais um, mais um! – Gusmão berrava tanto que Sérgio afastou o aparelho celular do ouvido.


Os 15 minutos de intervalo nunca demoraram tanto. Sua vontade era de que o jogo nem tivesse intervalo para não esfriar o time. O juiz apitou o início do segundo tempo. O Vasco deu a saída. Durante os 5 minutos iniciais, o Flamengo não conseguira tomar a bola. Aos 7 minutos, o lateral do Vasco chega à linha de fundo e cruza. Paulinho Peralta pula junto com os dois zagueiros e acerta uma cabeçada certeira no gol.


– Gooool! Aí, Sérgio, eu já tô indo pra casa, o jogo vai terminar assim.


Se eu fosse você, iria pra casa também, até pra dar tempo de decorar o hino para amanhã!


Sérgio não só encerrou a ligação como também desligou o telefone.


"Gusmão já me encheu o saco. Eu não faço isso nem com ele e nem com ninguém!", pensou Sérgio irritado. Sua irritação se transformou em esperança quando Adaílton recebeu uma bola e de voleio chutou para o gol. A bola acertou o travessão. Sérgio colocou as duas mãos na cabeça, mas se manteve sentado. "Um gol antes dos 15 minutos poderia mudar o jogo", pensou.


Alguns torcedores do Flamengo já saíam do estádio. Acreditar numa virada era impossível. Paulinho Peralta praticamente batia o escanteio e corria para cabecear. A chance do quarto gol era iminente. Aos 15 exatos, Adaílton recebe a bola e tabela com o outro atacante do Flamengo, que o deixa na cara do gol. Adaílton chuta em cima do goleiro. Não havia jeito: empatar e virar o jogo seria impossível.


Sérgio decidiu se concentrar somente na aposta com Gusmão e principalmente no gol do craque que veio da Gávea. "Ele não pode ganhar!


Ele não pode ganhar!" Aos 20 minutos, a bola é cruzada rasteira para a área do Vasco. Ela passa pelo zagueiro, pelo goleiro e por Adaílton, que erra o chute quase em cima da linha do gol. Sérgio coloca as mãos no rosto. Não acredita no que acaba de assistir. "Como pode? Ele já fez gols impossíveis!", pensava aflito. Suas pernas não paravam de tremer, suas mãos já estavam suadas. "Só um gol, não quero mais nada!" Aos 30 minutos, não havia mais ninguém à volta de Sérgio. Quase todos os torcedores do Flamengo haviam ido embora, exceto aquele sentado à sua frente, que dava gargalhadas toda vez que Adaílton tocava na bola.


– Eu já tô rindo de desespero, porque eu não entendo por qual motivo insistem em colocar esse cara pra jogar!" – sua risada aumentou ainda mais quando Adaílton cabeceou sozinho na área e a bola foi para fora.


O Vasco não atacava mais. O técnico cruz-maltino tirou Paulinho Peralta, que saiu aplaudido pela torcida, e colocou mais um meio-campo de marcação. "Se os deuses do futebol fossem justos, o Flamengo mereceria pelo menos dois gols. Um gol pelo menos", pensou Sérgio. Já passava dos 43 minutos e a esperança se transformara em frustração, nervosismo, chateação e, principalmente, irritação. O juiz levantou um dedo para o assistente indicando que daria mais um minuto de acréscimo.


Sérgio já estava imaginando como seria a segunda-feira. Ele jamais apostaria novamente com quem quer que fosse. Principalmente com o Gusmão. "Vamos, Adaílton, você é bom jogador!", torcia, fechando os olhos. Ao reabri-los, percebeu que o torcedor à sua frente tinha parado de rir e estava de pé.


– "Eu quero somente o gol de honra!", falava sozinho o torcedor.


Sérgio estranhou a reação do torcedor e, assim que voltou os olhos para o jogo, viu Adaílton, aos 44 minutos, receber a bola, próximo à grande área. Ele dribla o primeiro zagueiro, dribla o segundo. Sérgio, que não se levantara o jogo inteiro, já estava de pé. Adaílton dribla o goleiro.


O grito que estava preso na garganta veio depois do drible.


– Seu crioulo filho da puta! Seu lugar é quebrando pedra, seu merda!


Adaílton perdera mais um gol, chutando a bola para fora. O torcedor em pé e à frente olhou para trás sem entender a reação de Sérgio.



Adriano Bidão é cineasta, roteirista e escritor. Mestre em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Formado em Cinema pela Universidade Estácio de Sá. Autor do livro 'Reflexões Delirantes (Editora Multifoco, 2016)'. Colaborador do livro 'Vida que segue - João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970'. (Editora Nova Fronteira, 2005)



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