• Luiz Antonio Aguiar

CHICO, SARAMAGO, PESSOA

por Luiz Antonio Aguiar


... Delírios e Utopias!


“Ai, essa terra ainda vai cumprir seu ideal...

Ainda vai-se tornar... Um imenso Portugal!”

Fado Tropical, Chico Buarque, 1973



A epígrafe é do Chico, num ataque poético tanto à ditadura salazarista quanto à militar, no Brasil. Mas quero começar esta argumentação por José Saramago. E particularmente por seu romance Jangada de Pedra.

Não posso adivinhar os significados que teria a grande metáfora que envolve esta obra, para o Prêmio Nobel de 1998, falecido em 2010. No romance, Portugal, qual uma jangada de pedra, se destaca do restante da Europa e passa a vagar à deriva pelo Atlântico, isolado do mundo, isolado do seu presente, da sua contemporaneidade. Imune à passagem do tempo.






Certa vez, isso depois da Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974, assisti à palestra de um membro do Consulado Português, explicando Portugal antes e depois da ditadura Salazarista, que vinha desde 1926, passando pela morte do tirano Salazar, substituído pelo não menos tirânico Marcelo Caetano. Segundo esse personagem, cujo nome não vou lembrar, o grande objetivo de Salazar sempre foi isolar Portugal do restante da Europa, onde movimentos vanguardistas provocavam mudanças políticas, sociais, econômicas e culturais. Esse consul afirmou, ainda, que Salazar era um homem que acreditava – piamente – na volta de D. Sebastião a Portugal.



José Saramago

D. Sebastião , “O Desejado”, “O Esperado”, o Redentor”, foi um rei português que lutou nas cruzadas, e “desapareceu” na batalha de Alcácer e Quibir, em 1578. A decadência de Portugal, após o ciclo das Grandes Navegações, se inicia mais ou menos junto com essa tragédia nacional. O retorno de D. Sebastião, que nunca se deu, era tido pelos portugueses como o milagre que indicaria Portugal como, de fato, uma nação de escolhidos, destinados a governar um império que se estenderia da América do Sul, passando pela África, até a Ásia. O “sebastianismo” foi uma seita mística dedicada a esperar pela volta de D. Sebastião – uma sombra que pesou sobre Portugal durante séculos, como se ele ainda pudesse retornar, mesmo depois de tanto tempo – e pela consequente ressurreição de Portugal.


O resgate de Portugal, para se integrar ao mundo europeu e abrir os olhos para seu atraso, para a necessidade de se libertar do tal passado de glórias (as Navegações) e pensar em si no presente e no futuro, iniciou-se de fato, não com a volta de D. Sebastião, mas com a Revolução dos Cravos.. .. que se deu inclusive, entre outros fatores, como consequência do apego anacrônico de Portugal à sua política colonialista – racista - na África, que por sua vez lhe custou guerras e sacrifícios vãos.


Bom, por que escrevo tudo isso? Porque é um tema, até aqui, literário... a Jangada de Pedra, ilhada afastada do fluir do tempo, das mudanças da integração com o restante do mundo, a letra de Chico...


Mas, também porque tem tudo a ver com nosso presente bolsonarista. O psicopata que nos desgoverna nos afasta cada vez mais do mundo, transformando o Brasil em símbolo e exemplo de atraso, de persistência da homofobia, do racismo, da opressão social, do aniquilamento das florestas e dos povos indígenas... e, se os desejos deles se confirmassem, da volta da ditadura, nos moldes de mais de meio século atrás. Que o tempo não passe. Que as mudanças que a maioria do povo exige nunca ocorram, que sejam estigmatizadas como comunistas. Que nossa integração ao mundo, o qual desperta (a não ser o Trump, seriamente ameaçado de ser atropelado pelas manifestações antirracistas e perder as eleições, e mais 3 ditaduras : Bielorrrússia, Turcomenistão, Nicarágua; devo confessar, quanto aos dois primeiros, faço apenas uma tênue ideia de onde ficam) para uma Humanidade mais tolerante, promotora da justiça social, da proteção ao nosso habitat planetário, generosa em relação às minorias, aos refugiados, mesclada ao extremo em relação às múltiplas etnias e crenças que habitam todos os países. Particularmente nosso mestiço e sincrético Brasil. Ou seja, há razões para crermos na fundação de uma comunidade planetária, fraternal, depois que essa pandemia, e este ano de 2020 nos mostrar que o problema de um é o problemas de todos; e que a solução de um só é encontrada, reciprocamente, na solução para e com todos.


O reacionarismo bolsonarista tem inspiração salazarista. Mesmo o olavismo, achando-se tão moderno. Pode até não saber disso, mas tem. Até no projeto – um homem forte perpetuado no poder (no caso, com sua família), apoiado pelas forças armadas. Sonha com a volta de um passado irrecuperável, a ditadura militar. É feroz, em seu endeusamento da tortura e dos torturadores, da censura, da perseguição implacável e criminalização dos opositores. Quer nos manter, com fake News e fanatismo, isolados do que o mundo repensa, de como o mundo gira, atado a esse passado, temendo mudanças. Os de mentes mais conturbadas o vêem como redentor do seu terror a mudanças, que são inevitáveis, são o próprio correr do tempo. Assim como temem a integração de fato do país ao mundo convulso, onde essas mudanças fluem naturalmente. Na verdade, essa naturalização da mudança os horroriza. Unem-se no passadismo. Queriam que o Brasil fosse uma jangada de pedra. Esta é a promessa mentirosa dos fascistas brasileiros, é a ilusão vã de seus seguidores. O Brasil não vai se tornar um imenso Portugal até porque o modelo desse delírio não existe mais.


Torno a dizer, D. Sebastião nunca voltou. O Sebastianismo, denunciado como ainda um traço forte na alma portuguesa, por Fernando Pessoa, em vários poemas, terminou em cravos vermelhos. Os militares exauriram-se nas guerras coloniais e retornaram a Portugal para por fim ao regime. Nesse meio tempo, muitos deles haviam se tornado democratas, comunistas, ou socialistas, sociais-democratas – tudo, menos salazaristas.


Fernando Pessoa

O antirracismo une o mundo hoje. Outras causas, como a anti-homofobia, a defesa do meio ambiente, também. E no Brasil, forma-se uma frente ampla contra o fascismo miliciano.


Tanto Chico quanto Saramago eram otimistas, ou não teriam criado sua obra, que clama, nas entrelinhas, nos silêncios entre acordes, e mesmo explicitamente, é claro, por mudanças. Eu sonho que o mundo saia de 2020, não, querendo esquecê-lo , como se este ano não tivesse existido, mas, como um marco de mudança. Foi o ano em que o antirracismo assumiu o protagonismo das mudanças sociais. Em que o povo enfrentou a pandemia e foi às ruas defender a democracia. Em que perdemos uma infinidade de semelhantes, por quem choraremos para sempre. Porque lembraremos que, num país mais justo, grande quantidade dessas mortes poderiam ser evitadas. Porque, quem sabe, até mesmo em homenagem aos que foram sacrificados, a gente saia deste momento triste mais predisposto a essa fraternidade planetária, a essa identidade de semelhante dos povos e indivíduos dos 1001 cantos do mundo?


Pensando no Portugal progressista e solidamente democrático de hoje – pelo menos até a pandemia – quem sabe a profecia de Chico não se confirme e nossa terra se torne um imenso Portugal?


Um mundo, portanto, mais apto para ir às estrelas, consagrar utopias, tornar-se melhor!



Luiz Antonio Aguiar é escritor, com mais de 160 livros publicados, premiado no Brasil e no exterior, como em seu livro Sonhos em Amarelo, publicado pela Melhoramentos. É mestre em Literatura Brasileira, especializado nos romances clássicos nacionais e estrangeiros, particularmente Machado de Assis, sobre quem tem vários livros publicados. Escreveu uma adapatação de Moby Dick, publicada pela FTD. É professor de Literatura e de escrita literária, na Cátedra de Leitura Unesco-PUC/Rj. Tem ensaios informais sobre temas literários, no BLOG DO LUIZ ANTONIO AGUIAR, na aba Fora de Ordem. Nasceu em 1955, mora no Rio de Janeiro.


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