CRÍTICA AO GOLPE DE 2016


Curso livre no Departamento de História da FFLCH/USP: O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil

Os cursos universitários de História ainda são tímidos na abordagem do passado recente ou do presente como matéria de seu interesse. Apesar de falas metodológicas sobre História Imediata terem crescido nas últimas décadas, a longa duração ainda é encarada como setor nobre da pesquisa na área, presente e passado recentes merecem restrições técnicas e teóricas (acesso a documentação, envolvimento do pesquisador com sua matéria, mescla com a Política etc.).


O Curso O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil foi ministrado no Departamento de História da FFLCH/USP, sob a coordenação dos Profs. Drs. Pedro Puntoni e Everaldo Andrade, ato de altivez da universidade brasileira contra truculência ministerial expressa em 2018. A primeira formulação de uma disciplina acadêmica com esse teor, pelo Prof. Dr. Luís Filipe Miguel, da UnB, foi ameaçada de sanções por José Mendonça Filho, ministro da educação na época, que o acusou de proselitismo partidário e de ser destituído de base científica. Ao invés de argumentar intelectualmente contra o curso proposto, como aconselha a mínima ética acadêmica, o ministro optou por censura e ameaça. O pensamento, todavia, funciona de maneira diferente daquela opção ministerial, ele existe através de argumentos explicativos e demonstrativos, diálogo público contra o monólogo burocrático, é associado a coragem e teimosia. Realizar o curso foi (e continua a ser) um ato de defesa do pensamento contra a arbitrariedade, defesa compartilhada por dezenas de universidades brasileiras e até instituições estrangeiras – aquela truculência revelou-se involuntária reprodutora ampliada da configuração preliminar que a atividade possuía.


Além de afirmar saberes contra novos/velhos autoritarismos, o curso também assumiu clara opção metodológica no campo do conhecimento histórico. Seu título indicou o passado recente (realizado em 2018, sobre 2016) e englobou a discussão também a respeito do futuro como tarefa do historiador, que não é futurólogo mas se coloca criticamente diante de várias temporalidades.


Democracia é invenção, universidade é pensamento rigoroso. O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil exemplifica a invenção desse rigor, sem renunciar ao estudo histórico sobre outras temporalidades. Novos cursos de natureza similar merecem ser oferecidos, refletindo sobre ditaduras e riscos enfrentados pela cidadania.





*Marcos Silva: Doutor em História, Professor titular na FFLCH/USP. Publicou individualmente, dentre outros livros, “Prazer e poder do Amigo da Onça” (Paz e Terra, 1989). Pesquisa caricaturas, quadrinhos, literatura e ensino de História. Organizou diversos livros, dentre os quais “Dicionário crítico Nelson Werneck Sodré”. Nasceu em Natal, RN, e vive em São Paulo, SP.

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