Economia do Esporte: Existe Algo Parecido no Brasil?


O mundo presenciou nas últimas décadas um aumento expressivo na comercialização do esporte. A prática e o consumo esportivos ganharam uma importância social e econômica muito grande, atingindo todas as regiões do mundo e penetrando nas camadas de renda mais baixas da população.


A transformação do esporte em um fator dinâmico na indústria do entretenimento encontra respaldo nas seguintes evidências:


  1. a indústria do entretenimento é a maior indústria do mundo em volume de negócios e em número de empregos;

  2. o esporte é o segundo maior ramo, depois do turismo, da indústria do entretenimento/lazer, porém é o que vem crescendo a maiores taxas;

  3. formação de um complexo econômico-esportivo, envolvendo da venda de ingressos à produção de bens de consumo (vestuário, medicamentos, aparelhos para exercícios, etc..) , tem movimentado anualmente cerca 3.5% do produto interno bruto norte-americano. O mercado americano corresponde a 45% do mercado mundial complexo econômico-esportivo.

  4. o esporte é uma atividade regida por padrões rígidos de excelência, seja individual ou coletiva. A performance dos atletas de alto nível é aferida por padrões de desempenho internacional. O esporte é uma atividade eminentemente internacionalizada, onde se torna muito difícil restringir o acesso às inovações no treinamento físico, tático e técnico, pois a competição sendo transmitida mundialmente e o contato direto entre os competidores, faz com que a difusão seja imediata. O primeiro a inovar, perde logo a sua vantagem, no momento exato em que a afirma, vencendo o campeonato, ou ganhando uma medalha de ouro.

  5. a internacionalização do esporte também ocorre no mercado de negociação de transferência de atletas e nos contratos feitos com eles. Um atleta de padrão internacional tem o preço do seu trabalho ditado pelo mercado mais forte. Isso faz com que os mercados menos desenvolvidos tenham cada vez mais dificuldade em reter seus melhores atletas.


Este processo de mundialização do esporte tem o seu elemento mais importante que na presença ostensiva da televisão. A mundialização do espetáculo esportivo e do ídolo esportivo, produto da televisão, tem se convertido no maior fator de valorização social e econômica da prática esportiva e do espetáculo esportivo.


O esporte precisa de capital. O capital precisa de ídolos. O ídolo e o capital, precisam de empresas profissionais na organização das competições e na realização dos espetáculos, para que se tenha a valorização econômica e social do ídolo e do capital.

Essa dependência entre capital, espetáculo e necessidade de produção e reprodução de ídolos, tem levado a uma integração vertical na indústria do entretenimento, com as redes de televisão se tornando proprietárias ou co-proprietárias dos estádios e arenas esportivas, dada a importância cada vez maior da infraestrutura para o espetáculo esportivo.


Além isso, acopla-se o espetáculo esportivo ao turismo, vendendo-se pacotes de “turismo esportivo” das mais diversas modalidades: desde a viagem para assistir aos grandes eventos esportivos mundiais - Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais - até aos pacotes de fim de semana que prometem um lazer esportivo e/ou esportivo ecológico nos diversos hotéis, pousadas e resorts especialmente preparados para este tipo de evento. É o caminho da integração completa da indústria do lazer: turismo, esporte, infra-estrutura, meio-ambiente, etc.


Essa rede de interesses econômicos e de negócios, a interação de vários mercados e áreas de investimento, e a sua integração em uma única direção, a valorização do espetáculo esportivo e do ídolo esportivo, fornece o impulso crucial para a sua contínua reprodução: a expectativa de ascensão social para as populações mais carentes. O sonho de se tornar um ídolo os anima a investir em estratégias de sobrevivência, que possam lhes dar um espaço de valorização social, mesmo que local, para que consigam reproduzir em seu universo algo da magia da vida dos seus grandes ídolos.


Em todos os países do mundo o esporte é a ponta mais visível de uma grande cadeia de atividades sociais e econômicas. Essa cadeia de produção e reprodução contínua das bases econômicas e sociais do esporte começa com a atividade física, fator inerente a todo ser humano e condição fundamental para sua sobrevivência.

A atividade física é uma forma de conhecimento do mundo através do relacionamento do corpo com a realidade exterior[1]. Esta atividade foi sendo codificada ao longo do tempo e se transformou em uma disciplina denominada educação física. Por esta razão, a educação física deve se constituir no centro da política pública voltada para a melhoria da cidadania. Deve ser um direito do cidadão, pois ela influi nas condições de saúde da população, nas formas diferenciadas de lazer e é um forte vínculo do indivíduo com o seu meio social. É um fator de civilidade extremamente importante. Ensina regras de convivência social e permite um claro reconhecimento dos limites individuais e sociais.


O esporte nasce do desenvolvimento das atividades físicas para a competição, derivadas do conceito grego de sempre buscar o aperfeiçoamento: citius, altius, fortius[2]. Sem o desenvolvimento dos exercícios para a coordenação dos movimentos básicos do corpo humano – andar, correr, saltar – não se teria conseguido caçar, lutar, nadar, etc. A sobrevivência do homem estaria em risco. O esporte, neste sentido, é uma forma civilizada de continuar fazendo o que os nossos antepassados faziam para sobreviver, só que agora para nos entreter.


*Luiz Martins de Melo: Doutor em Economia, Professor do Instituto de Economia da UFRJ e Atleta Emérito da Confederação Brasileira de Basquetebol, ex-jogador do Vasco e da Seleção Brasileira.


[1] Lembre do lema da Grécia Antiga: o cidadão para ser completo tinha que ter "mens sana in corpore sano" .

[2] Mais veloz, Mais alto , Mais forte.

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