Eric Hobsbawm, um militante da História


por Raul Milliet Filho


O Deixa Falar, blog socialista, vem pela segunda vez enaltecer Eric Hobsbawm, o maior historiador dos séculos XX e XXI.


Leiam este artigo publicado pela Revista em Pauta da Faculdade de Serviço Social da UERJ, após o falecimento de Hobsbawm.


Aqui no Deixa Falar, já postamos outro texto sobre este mesmo intelectual orgânico: Como Eric Hobsbawm analisaria Bolsonaro?



HOMENAGEM DE VIDA

Eric Hobsbawm, um militante da História

Eric Hobsbawm, a militant of History

Raul Milliet Filho


Eric Hobsbawm, um dos maiores historiadores do século XX, falecido em 1º de outubro de 2012, trilhou caminhos pouco frequentados pelo mundo acadêmico. Além de economia, política e movimentos sociais dominava outros temas como jazz, artes plásticas, moda e futebol.

Eric Hobsbawm

Marxista, avesso a análises reducionistas e dogmáticas, Hobsbawm foi um estilista erudito e original, senhor de uma narrativa leve e sofisticada, respeitado até mesmo por críticos contundentes, como Tony Judt. O historiador Hobsbawm e sua obra só podem ser compreendidos através do contraponto de sua vida pessoal e de sua formação acadêmica na Inglaterra.

De família judaica, nasceu em Alexandria em 1917. Sua infância e adolescência foram duras, marcadas por graves dificuldades financeiras e pelo falecimento precoce de seus pais.


Passou a infância em Viena, mudando-se para Berlim aos 14 anos para residir com uma tia. A conjuntura era singular e efervescente: crise econômica e embates políticos cotidianos.

Eric ingressa no Partido Comunista Alemão (KPD) antes de concluir o ginásio, no apogeu das Frentes Populares.

Foi uma fase que marcou sua vida para sempre, conforme assinalado em sua autobiografia Tempos Interessantes:

Autor de livros que inovaram a compreensão do mundo contemporâneo - A Era das Revoluções (1789-1848); A Era do Capital (1848-1875); A Era dos Impérios (1875-1914) e A Era dos Extremos (1914-1991)[1] - encantou leitores e críticos de várias correntes do pensamento, independente de filiação ideológica ou político-partidária.


O historiador Niall Ferguson, em entrevista ao The Guardian, considera estes quatro livros, o ponto de partida mais indicado para quem pretende aprofundar seu conhecimento sobre a História Moderna.


Hobsbawm pode ser denominado como o mais completo historiador do capitalismo e um de seus mais severos críticos.


Seu método era invulgar. Abdicava de preâmbulos teórico-metodológicos, componentes que fluíam em sua narrativa entrelaçados harmonicamente nos desdobramentos dos períodos históricos analisados.


Em suas investigações evitava abstrações conceituais, pautando-se por uma rigorosa historicidade, recuperando para a História a tradição dos estudos panorâmicos, abrangentes, articulando as dimensões da economia, cultura, política e lutas sociais.


Nos quatro volumes aludidos, Hobsbawm envolve o leitor através de uma análise solida, instigante e inovadora, demonstrando os vínculos estreitos entre a Revolução Industrial e a Revolução Francesa, além de empreender uma investigação sobre a expansão imperialista e a Revolução Russa.


Em paralelo situa a História do trabalho, o mundo do trabalho como elemento central do processo histórico, abrindo caminho para a valorização de movimentos sociais não organizados, vertente que levaria a termo em Rebeldes Primitivos (seu primeiro livro publicado, em 1959) e Os Trabalhadores.


Da Era das Revoluções, à Era dos Extremos, a Revolução Francesa e a Revolução Russa são destacadas como os dois momentos de ruptura mais significativos da História.

Em A Era dos Extremos, Eric Hobsbawm estabelece parâmetros comparativos destas duas revoluções:


Em um dos seus textos, afirmou que um historiador social não podia negligenciar nem a economia nem Shakespeare. Deveria analisar não somente os aspectos econômicos da vida em sociedade como as ideias, a linguagem e o imaginário coletivo.


Para Hobsbawm a História se move pela ação direta do homem e o papel do historiador seria buscar a compreensão deste processo a partir de suas múltiplas inflexões.


O seu rompimento com o marxismo vulgar e positivista, plasmado na sucessão dos modos de produção e na marcha inevitável do escravismo ao socialismo, deságua na sua proposta analítica das "Eras", cujo eixo está centrado na ascensão da burguesia, na luta de classes, na Revolução Russa, no crescimento das forças produtivas e nas duas Guerras Mundiais.


Apesar de recusar o dogmatismo, não abdicou de suas convicções, não tomou assento nos vagões de um marxismo adocicado, nem enveredou por caminhos da macro-história e/ou da História das Mentalidades. Ao contrário.


Personagens a semelhança do moleiro Menocchio de Carlo Ginzburg (O Queijo e os Vermes) e toda uma gama de Pessoas Extraordinárias, homens simples do povo, brotam ao longo de sua obra, sem a perda da noção de totalidade. O diálogo constante entre a macro e a micro-história e conduzido com sabedoria e fluência, aliado a um domínio pleno da narrativa em seus livros e textos.


Da mesma forma, Hobsbawm não sucumbiu aos embates com o estruturalismo, apoiando E. P. Thompson em sua longa polêmica com Althusser.


É o próprio Hobsbawm que nos leva a conhecer os momentos iniciais de sua formação acadêmica, já em solo inglês, nos anos que precedem a Segunda Guerra Mundial. Anos marcantes, onde já despontam o estilo e o método do historiador, ainda muito jovem:

Em Sobre História, Hobsbawm afirma que não seria possível empreender uma abordagem consistente da História "que não se reporte a Marx ou, mais precisamente, que não parta de onde ele partiu" (1998, p.43).


Por outro lado, compreendia que as analises inovadoras de Marx sobre as transformações estruturais das sociedades não incorporaram as questões culturais e o imaginário coletivo, pelas limitações do referencial teórico disponível em meados do século XIX.


Hobsbawm entendia que seria impossível aprofundar a obra de Marx sem contextualiza-la historicamente. E foi exatamente isto que levou a termo em seus estudos, como no ensaio "A História Britânica e os Annales: Um Comentário":

O contraponto entre as relações econômicas e culturais está presente em vários de seus livros. Em Pessoas Extraordinárias: Resistência, rebelião e jazz aprofunda temas como classe operária na transição do século XIX para o XX, como o Bandido Giuliano e o jazz em Nova Orleans no pós-1930 "como um dos poucos desdobramentos no âmbito das artes maiores, totalmente originado no cotidiano das pessoas pobres" (HOBSBAWM, 1999, p.8).


Em História Social do Jazz, Eric Hobsbawm estabelece um diálogo criativo com as concepções gramscianas de cultura, resgatando o próprio Walter Benjamin, vislumbrando nos aparelhos privados de hegemonia cultural terreno fértil para a guerra de posição, principalmente no ensaio "A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica".


Quando discorre sobre o jazz, suas origens e trajetos, uma paixão sincera de sua vida, Hobsbawm incorpora os conceitos de sociedade civil, guerra de movimento e guerra de posição em Gramsci, lapidados com estilo e tradição iluminista:

A consolidação do Hobsbawm historiador é tributária da escola britânica de historiadores marxistas formada nos anos 1930. Um grupo de intelectuais que iniciou sua trajetória profissional a partir da literatura: Christopher Hill, E.P. Thompson, Victor Kiernan, Leslie Morton, Raymond Williams, além do próprio Eric.


Este grupo mantém, entre 1946 e 1956, um seminário marxista permanente, discutindo novas ideias, objetos e métodos. Em 1952, seus membros criam a publicação Passado e Presente, que marcou época disseminando a influência da erudição histórica britânica em todo o mundo, principalmente na década de 1960.


Em sua trajetória pessoal e profissional sempre esteve próximo a E.P. Thompson, com quem compartilhava ideias e posições políticas de forma nem sempre retilínea. Convergiam em torno da noção de que é no processo das pugnas políticas que as classes populares constroem sua identidade, sem assumir necessariamente uma postura de ruptura revolucionária, de classe para si.


Tanto para Hobsbawm quanto para Thompson, movimentos aparentemente despolitizados podem sedimentar fortes vínculos de identidade e solidariedade de classe, como diques prontos a reter, ao menos provisoriamente, o maremoto da modernização capitalista.


O conceito de classe social amplamente trabalhado e alargado por Thompson para além da posição dos indivíduos quanto à propriedade dos meios de produção, valorizando a vivência/experiência cotidiana, sempre teve em Hobsbawm um entusiasta permanente. Da mesma forma, Thompson comungava com o colega a sua visão de Estado ampliado (de clara inspiração gramsciana), bem como as conclusões sobre nacionalismo e o surgimento do Estado Nação moderno. É sabido que Hobsbawm situava as ideias nacionalistas como construções anteriores ao Estado Nação do dezenove.


Em Mundos do Trabalho e Os Trabalhadores, Hobsbawm traçou panoramas instigantes sobre assuntos aparentemente distanciados e dispersos, mas com sólidos vínculos conceituais e interpretativos, manejando um quase imperceptível fio condutor, costurando questões metodológicas ao longo de capítulos sobre períodos e regiões sem vizinhança cronológica e geográfica.


Eric Hobsbawm considerava-se "um antiespecialista em um mundo de especialistas, um cosmopolita poliglota, um intelectual cujas convicções políticas e obra acadêmica foram dedicadas aos não intelectuais" (HOBSBAWM, 2002, p.453), e ia além, definindo-se como um pássaro migratório, pois segundo ele a "história exige mobilidade e capacidade de avaliar e explorar um vasto território, isto é, a capacidade de ir além das próprias raízes" (p. 451).


De fato, levou tudo isto ao pé da letra, vivendo como pensava, sobrevoando o ártico e os trópicos, desvencilhando-se daqueles que considerava os dois pecados capitais da história: o anacronismo e o provincianismo, "ambos resultado de simples ignorância de como são as coisas alhures, o que nem a leitura ilimitada, nem o poder da imaginação podem superar" (p. 452).


Desde os anos 30 foi um viajante do mundo e pelos livros. Em 1936, percorreu várias cidades na boleia de um caminhão de um cinejornal do Partido Socialista, no momento de apogeu da Frente Popular em Paris.


Pouco depois, cruza a fronteira espanhola dirigindo-se à Catalunha, no momento exato em que eclode a Guerra Civil. Durante a Segunda Guerra Mundial cavou trincheiras em uma divisão do exército britânico, exercendo simultaneamente o papel de tradutor no serviço de inteligência.


Em 1962, em Cuba, foi tradutor de Che Guevara e de vários colegas ingleses em debates e encontros.


Sua paixão pelo jazz o levou a escrever uma coluna mensal como crítico para o jornal New Statesman and Nation, assinando com o pseudônimo de Francis Newton, homenageando, assim, Frankie Newton, musico de jazz declaradamente comunista.


Torcedor do Arsenal, não perdeu um jogo da Copa do Mundo de 1970, revelando anos depois para Luciano Costa Neto, tradutor para o português de A Era do Capital, sua admiração por Gerson e Tostão. Retinha na memória toda a trama do gol brasileiro contra a Inglaterra feito por Jair.


Em Era dos Extremos, disse: "e quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?" (HOBSBAWM, 1998, p. 197).


Ao longo de sua obra citou vários brasileiros: Luís Carlos Prestes, Oscar Niemeyer, Carlos Nelson Coutinho, Lula e Luiz Schwartz.


Gostava do chorinho como gênero musical, talvez por sua proximidade com o jazz em seus solos improvisados. Participou em Porto Alegre de uma sessão em praça pública, organizada por vereadores e pelo prefeito (administração do PT), debatendo abertamente com os cidadãos presentes.


Ao contrário do que muitos afirmaram por ocasião de seu falecimento, Hobsbawm não ignorou o desmoronamento da União Soviética nem tampouco se omitiu em sua trincheira de historiador e homem de esquerda.


Em O Novo Século, em uma longa entrevista a Antonio Polito, afirmou:

A História que mais interessou a Hobsbawm sempre apontou para narrativas analíticas da evolução das sociedades na longa duração. Embora tenha nutrido simpatia pela École des Annales, ao contrário dos seus postulados, acreditava que a história muda, mesmo com as amarras do tempo longo.


O esquadrinhamento dos séculos XIX e XX em sua longa obra deixa um legado incomum no campo das Ciências Sociais.


No seu último livro publicado, Como mudar o mundo (2011), Hobsbawm salientou que Marx, mais do que nunca, é um pensador do século XXI e que, por ironia, foram os capitalistas que chegaram a esta conclusão. As crises econômicas da última década e a incapacidade do liberalismo político e econômico em apresentar alternativas indicam claramente isto.


Por fim, pensamos que a maneira mais adequada de concluir esta pequena homenagem a Hobsbawm é reproduzir uma confissão sua, sincera e despojada. Um autorretrato revelador do homem e do intelectual humanista que foi.

[1] Estas obras foram publicadas pela primeira vez na Inglaterra, nas seguintes datas: 1962, 1975, 1987 e 1992, respectivamente.



Referências


GINZBURG, C. O queijo e os vermes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007. [1a reimp.]

HOBSBAWM, E. A era das revoluções: 1789-1848. 9a ed. São Paulo: Paz e Terra, 1997.

____ . A era do capital: 1848-1875. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

____ . A era dos impérios: 1875-1914. 5a ed. São Paulo: Paz e Terra, 1998.

____ . Era dos extremos: 1914- 1991. 2a ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

____ . História social do jazz. 2a ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

____ . Sobre história. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. [1a reimp.]

____ . Pessoas extraordinárias: resistência, rebelião e jazz. 2a ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

____ . Mundos do trabalho: novos estudos sobre história operária. 2a ed. São Paulo: Paz e Terra, 1988.

____ . Os trabalhadores: estudos sobre a história do operariado. São Paulo: Paz e Terra, 1981.

____ . O novo século: entrevista a Antonio Polito. São Paulo: Companhia de Bolso. 2009.

____ . Rebeldes primitivos. Madri: Editora Crítica, 2001. [2a reimp.]

____ . Como mudar o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. [1a reimp.]



Raul Milliet Filho é Historiador, criador e editor responsável deste blog, mestre em História Política pela UERJ, doutor em História Social pela USP. Como professor, pesquisador e autor prioriza a cultura popular. Gestor de políticas sociais, idealizou e coordenou o Recriança, projeto de democratização esportiva para crianças e jovens. Autor de “Vida que segue: João Saldanha e as copas de 1966 e 1970” e do artigo “Eric Hobsbawm e o futebol”, dentre outros. Dirigiu os documentários: “Quem não faz, leva: as máximas e expressões do futebol brasileiro” e “A mulher no esporte brasileiro”.





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