Haroldo Lobo, soberano da alegria


Haroldo Lobo

Embora menos lembrado que Lamartine, Braguinha e João Roberto Kelly, a produção carnavalesca de Haroldo Lobo nada fica a dever a estes monstros sagrados. Esta opinião não é somente minha: estudiosos da Música Popular Brasileira como Sergio Cabral e a californiana Daniella Thompson o colocam no Olimpo da Música de Carnaval no mesmo patamar dos acima mencionados. Eu também concordo e no texto a seguir vou mostrar porquê.


Como bom carioca, sempre gostei de Carnaval, em todas as suas formas de realização: blocos de rua, bailes de salão e banhos de mar a fantasia, desfiles de préstitos, de ranchos, de frevos e de escolas de samba.


Lembro-me que, nos anos da minha mocidade ficava grudado no radinho de mesa da casa de minha avó, escutando as novidades musicais que iam sendo lançadas nos programas de auditório de Manoel Barcellos, Cesar de Alencar e Paulo Gracindo, marchas e sambas que animariam os foliões nos bondes, blocos e bailes nas manifestações pela cidade na próxima folia.


Daquela época, o que eu mais guardei em minha memória foram os nomes dos intérpretes anunciados pelos animadores dos programas a cada apresentação.

Por outro lado, os nomes dos compositores, raramente mencionados, permaneciam em segundo plano. Por isso muitos deles foram ficando no meu esquecimento, e creio que, do público também.


Figuras notáveis como Alberto Ribeiro, Antônio Almeida, Arlindo Marques Jr., Armando Cavalcanti, Assis Valente, Ataulfo Alves, Claudionor Cruz, David Nasser, Eratóstenes Frazão, Cristóvão de Alencar, Herivelto Martins, Jota Junior, Klecius Caldas, Luiz Antônio, Nássara, Paquito, Pedro Caetano, Peterpan, Roberto Martins, Roberto Roberti, Romeu Gentil, Wilson Baptista e tantos outros deram contribuições inestimáveis para a nossa maior festa popular.


Mas é de Haroldo Lobo que venho lhes falar:


Nascido no Rio em 23 de julho de 1910 e criado na Freguesia da Gávea, filho do casal de Quirino e Philomena Lobo, ele músico amador e funcionário da Companhia de Fiação e Tecelagem Carioca, Haroldo permaneceu durante toda a sua vida fiel à região do Jardim Botânico onde deu seus primeiros passos, aprendeu as primeiras letras, solfejou os primeiros acordes e compôs suas mais de 620 composições, a maior parte delas para a Folia de Momo.


– Meu pai nasceu para o Carnaval, me dizia seu único filho homem, o querido Denis Lobo, infelizmente falecido em 2017, que tive a honra de encontrar inúmeras vezes para aprender sobre Haroldo.


Moreno, alto para a média dos rapazes do seu tempo elegante e sempre alegre, Haroldo cresceu, praticou basquetebol (no Flamengo e no Botafogo, este seu time de coração,, tornou-se compositor de grande sucesso, casou-se com Dona Silvia e teve três filhos – o já citado Denis e suas irmãs Darlen e Diana – e viveu no referido bairro até sua morte em 20 de julho de 1965, três dias antes de completar 55 anos de idade.

Trabalhou sempre na Guarda Civil do Distrito Federal onde começou como inspetor tendo atingido no final da carreira o posto de oficial. Foi fundador, conselheiro, tesoureiro e diretor de Assistência Social da sua sociedade musical, a SBACEM – Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Músicos

Diretor e depois presidente do Carioca Esporte Clube, fundado em 1907 por funcionários da Fábrica Carioca, era nele que Haroldo apresentava suas músicas, sempre com um ano de antecedência para “ sentir o pulso “ conforme eram recebidas pelos frequentadores das memoráveis festas da agremiação.


Editou um pequeno jornal – O Panarício – que circulava entre os seus amigos do bairro e criou o Bloco da Bicharada que desfilou até a sua morte, desfilando como seus bichos enormes, feitos de papier maché, e tripulados por seus inúmeros amigos, boa parte dos quais ligados ao Turfe, esporte a que ele se ligou, desde a inauguração do Hipódromo da Gávea na década de 1930.


As duas primeiras composições de Haroldo, gravadas por Aurora Miranda em 1933 – Metralhadora em parceria com Donga (o do primeiro samba registrado, Pelo Telefone) e Luiz Menezes e De Madrugada, em parceira com Vicente Paiva (autor de Mamãe eu Quero em parceria com Jararaca, grande sucesso do Carnaval de 1937 e de todos os anos até hoje). Registre-se que Haroldo tinha então apenas 22 anos, o que é demonstração precoce do seu inegável valor.


No Carnaval de 1938, o samba Juro, parceria de Haroldo com Milton de Oliveira e gravado por J. B. De Carvalho conhecido como “Ö batuqueiro famoso” obtém o primeiro lugar no Concurso da Prefeitura, o primeiro de uma série de premiações que conquistaria ao longo da vida.


A maioria das músicas assinadas por Haroldo foram compostas com parceiros, dos quais mais constantes foi o já citado Milton de Oliveira, seu compadre e responsável pela divulgação das obras junto às estações de rádio e programadores. Seus nomes aparecem juntos em cerca de 270 músicas. Outros parceiros frequentes foram Wilson Baptista, Benedito Lacerda, Antônio Nássara e David Nasser. E em menor escala mas dignos de registro aparecem Bide, Cristóvão de Alencar, Marino Pinto e Nilton de Souza, o Niltinho Tristeza, de quem falaremos adiante.


Entre as cantoras, menção especial merece Aracy de Almeida, conhecida como a grande intérprete de Noel Rosa que gravou 56 obras de Haroldo Lobo, número superior às 35 canções de Noel que ela imortalizou.. Destacaram-se também Dalva de Oliveira, as irmãs Linda e Dircinha Batista, Heleninha Costa, Emilinha Borba, Marlene e Ângela Maria.


Seus principais intérpretes masculinos foram Orlando Silva, Carlos Galhardo, Nelson Gonçalves, Nuno Roland, Gilberto Milfont, Blecaute e o mais constante deles, o Caricaturista do Samba Jorge Veiga. Outros igualmente talentosos mas menos conhecidos, que contribuíram para o êxito de Haroldo foram Patrício Teixeira, Vassourinha, Walter Levita, Nilton Paz e Ary Cordovil.


Não podemos esquecer os conjuntos vocais Quatro Ases e Um Coringa e os Anjos do Inferno.


Haroldo também se notabilizou pelas composições dedicadas ao período das festas juninas, a mais conhecida delas sendo O Sanfoneiro Só Tocava Isso em parceria com Geraldo Medeiros, componente da Orquestra Tabajara do paraense Severino Araujo, e que foi registrada na voz de Dircinha Batista.


Mas passemos à recordação dos grandes sucessos de Haroldo Lobo.






*Engenheiro Mecânico com especialização em Engenharia Econômica pela UFRJ. Secretário Executivo do Ministério da Previdência e Assistência Social. Foi membro do Departamento Cultural do GRES Portela, fundador da Quilombo; diretor cultural do Clube de Engenharia, além de ter participado de diversas produções cinematográficas. Autor do livro "A Velha Guarda da Portela", em parceria com João Baptista de Medeiros Vargens, escola da qual foi Diretor Cultural até 2015.

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