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Na cadência do traço

Atualizado: 21 de jan. de 2022


por Flavio Pessoa


Já tem mais de uma década desde que eu comecei a adquirir o hábito de ir desenhar nas rodas de samba aqui do Rio de Janeiro. Eu até poderia dizer que ouço e gosto de samba desde o berço. Meu saudoso pai gostava muito de carnaval e me levou à Banda de Ipanema quando eu tinha apenas um ano de idade. Fui “batizado” pela Clara Nunes... me viu todo animado e pediu ao meu pai pra me pegar no colo. Depois, ao longo da infância, gostava de assistir aos desfiles e acompanhar a apuração, torcendo, junto com meu pai, pela Mangueira. Mas foi na época da retomada do samba e do renascimento da Lapa, em fins dos anos 1990, quando eu já estava terminando a faculdade, que eu comecei a me envolver mais efetivamente com o samba, quando comecei a conhecer a sua história e a mergulhar nesse rico universo.


Acredito poder afirmar que o samba é o patrimônio cultural de maior relevância do país. É um gênero musical extremamente amplo porque se mistura com os mais diversos ritmos: surgiu derivado do maxixe, samba-choro, samba-canção, samba-enredo, samba-jazz, samba-rock. É um gênero popular, já foi severamente reprimido e depois se tornou o principal produto de exportação do país, durante a Era Vargas. Toda vez que surgem novos ritmos que fazem a cabeça de uma geração, o samba é desenganado, para depois se renovar, mais adiante: “agoniza, mas não morre” já dizia o nosso Nelson Sargento.


Do samba, sou apenas um profundo admirador. Não sou músico (nem mesmo amador), não sou afinado, não sambo, nem tenho muita coordenação motora para manter o ritmo num pandeiro ou num tamborim por mais de 10 segundos. Resolvi fazer o que sei: desenhar. Entre 2008 e 2009, quando surgiam mais rodas de samba nas ruas, eu estava começando a dar aulas de desenho de observação, na Faculdade de Arquitetura da UFRJ, onde levávamos as turmas para aulas externas e fazíamos desenhos de locação. Essas aulas me incentivaram a resgatar o hábito de ter sempre um caderno de desenho à mão. Foi nessa época que eu fiquei sabendo da roda que acontecia, em sábados alternados, na Rua do Ouvidor, em frente à Livraria Folha Seca. Ver uma roda de samba na rua tendo como cenário o casario do centro histórico era uma “viagem no tempo” que eu já sonhava fazer há alguns anos. Somava-se a isso, o desafio de desenhar o ambiente em movimento, em meio a uma multidão espremida, e o desejo de registrar um fenômeno cultural histórico de grande tradição e relevância. Esta sempre foi uma cidade musical e embora não se tenha muitos vestígios, acredito que as rodas de samba e de choro nas ruas nunca devem ter deixado de existir em algum canto da cidade.


Não lembro exatamente de como foi o primeiro dia. Mas certamente fiz como costumo sempre fazer. Fui me aproximando da roda aos poucos. Não era fácil. Quando a gente chegava no samba, eram muitas cabeças até estar de frente pros músicos. A gente ia, passo a passo, ocupando os espaços vazios, deixados por aqueles que saíam pro banheiro ou pra pegar uma cerveja. Quando eu chegava, ficava ali, durante algumas músicas, só observando e me inserindo no ambiente. Olhava as formas, do todo para os detalhes, captava movimentos peculiares, observando atentamente os movimentos de cada um dos músicos, das cordas à percussão (os de sopro eram mais eventuais).


Desenhava com os olhos. Só então, sacava o caderno, um lápis ou uma caneta e começava a desenhar enquadramentos mais fechados, um grupo de músicos, o público atrás deles, a mesa cheia de garrafas, copos, cigarros, partituras, instrumentos. Desenhava sem um propósito profissional maior. Desenhava por prazer, pra praticar, compartilhar e divulgar meu trabalho, mas esses desenhos foram criando pontes interessantes, fazia amizades, estabelecia contatos e me aproximava dos músicos. Comecei a compartilhar os desenhos nas redes sociais e cheguei a criar a página Ilustre Samba no Facebook para divulgar mais facilmente esses trabalhos. Passei a finalizar alguns em casa e até a fazer aquarelas a partir dos croquis dos cadernos. Anos depois, meu amigo percussionista Junior Oliveira me encomendou caricaturas dele e de mais três integrantes do Samba do Trabalhador, para estampar na pele dos instrumentos que eles usaram na gravação do DVD.

Recentemente eu venho reunindo esses desenhos com intuito de transformar em uma publicação. Aproveitando a ocasião do Dia Nacional do Samba, comemorado no dia dois de dezembro, resolvi compartilhar aqui no blog Deixa Falar uma breve seleção dessas ilustrações. Entre a Zona Sul e a Zona Norte, foram muitos rabiscos embalados pelo ritmo cadenciado da maior expressão musical do Brasil. Muitos fazem parte do roteiro de todo bom amante do samba: Bip-bip, Fuska Bar, Praça São Salvador, Samba da Ouvidor, Pedra do Sal, Vaca Atolada da Lapa, Samba Informal, na Conde do Bonfim e Samba do Trabalhador, no Clube Renascença, no Andaraí.



DESENHOS


ZONA SUL

1 - Bip-bip em aquarela.

2 - Fuska Bar - Samba do Bilhetinho. Lápis de cor e canetas nanquim.

3 - Fuska Bar - Conjunto Grapiúna. Lápis de cor, aquarela e canetas nanquim.

4 - Praça São Salvador (Roda de choro e samba) .Lápis de cor e canetas nanquim.

CENTRO

5 - Vaca Atolada. Caneta copic cinza e caneta nanquim.

6 - Samba da Ouvidor. Lápis de cor.

7 - Samba da Ouvidor em dois momentos. Aquarela.

8 - Pedra do Sal. Aquarela.

9 - Pedra do Sal. Aquarela.

ZONA NORTE

10 - Samba Informal (Conde de Bonfim). Aquarela.

11 - Samba do Trabalhador no Renascença (Andaraí)

12 - Samba do Trabalhador no Renascença (Andaraí). Lápis de cor e canetas nanquim.

Flavio Pessoa é formado em design gráfico, ilustrador do ramo editorial. Doutor em Artes Visuais pelo PPGAV, da Escola de Belas Artes (2021), onde defendeu a tese "Jeca-Tatu a rigor: Representações do povo na Careta e n’O Malho: identidade nacional na Primeira República (1902-1929)." É mestre em História Comparada pelo PPGHC, IFCS (2013) com tese sobre as charges de futebol de Lorenzo Molas e Henfil para o Jornal dos Sports.Em 2001 concluiu a especialização em história da arte e da arquitetura no Brasil, pela PUC, com monografia sobre o ilustrador Roberto Rodrigues.

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