O futebol na pandemia: genocídio

Atualizado: Abr 26


Por Raul Milliet Filho



Tai. O Deixa Falar andou pisando na bola quando não bateu de frente com a loucura e perversidade da realização de campeonatos coletivos, como o futebol, em plena pandemia, não só no Brasil como no Mundo todo.


Será preciso argumentar? Penso que não. Transcrevo algumas considerações do mestre Luiz Gonzaga Belluzzo:


"Só os beócios não entendem que o capitalismo, enquanto sistema de integração social através da apropriação da riqueza, é totalitário. Hoje em dia, aliás, é perigoso contestá-lo, sem ser imediatamente ridicularizado e desqualificado. Então, os negócios começam a invadir o ensino básico, universitário, a saúde, o esporte, o lazer e, numa escala industrial, a família ou o amor familiar. Ocorre aqui uma ruptura insuportável em relação à experiência imediata, mais afetiva e em escala humana."


Não posso acreditar e confesso meu espanto ao assistir no SPORTV, ESPN Brasil, TVs abertas, ler nos jornais e demais meios de comunicação, matérias e artigos, comentando o futebol como se nada no mundo estivesse acontecendo.


Lembra até imperadores romanos, no Coliseu, assistindo gladiadores atirados às feras para delírio do pão e circo.



São poucos os comentários sobre vítimas anônimas da COVID ou sobre vítimas quase invisíveis como o querido Maurão, falecido de COVID em 06/01/2021, ele que foi motorista do ônibus do time do Botafogo durante mais de 15 anos. Isto sem falar em Renan Dal Zotto, craque de voleibol, medalhista olímpico em 1984, atual técnico da seleção masculina, hoje internado e intubado.


Maurão, o motorista apaixonado pelo Botafogo — Foto: Fred Gomes/GloboEsporte.com

Também não consigo compreender o Galvão Bueno ansioso, mal esperando a hora do início das Olímpiadas de Tóquio. Sim, Olimpíadas em uma cidade que está prestes a entrar em lockdown. Olimpíadas que não terão público presente aos estádios e demais arenas.


E a função pedagógica do esporte, principalmente do futebol? O seu exemplo? Isto tudo é balela? Não provoca aglomeração e dissemina o vírus?


Lançamos mão também de Pierre Bourdieu em seu livro “Sobre a Televisão”:


"Assim também, no jogo esportivo, o campeão [...] é apenas um sujeito aparente de um espetáculo que é produzido de certa maneira duas vezes: uma primeira vez por todo um conjunto [...] encenadores de todo o cerimonial, que concorrem para o bom transcurso da competição esportiva [...]; uma segunda vez por todos aqueles que produzem a reprodução em imagens e em discursos desse espetáculo no mais das vezes sob a pressão da concorrência e de todo o sistema das pressões exercidas sobre eles pela rede de relações objetivas na qual estão inseridos."


É evidente que num país continental como o Brasil - incluindo em várias competições de países vizinhos como Colômbia, Argentina e Uruguai - a CBF, e a CONMEBOL e a FIFA promovem uma dança dos vampiros da COVID dentro dos clubes e de todos os locais onde a competição é realizada.


Guy Debord em seu clássico livro “A sociedade do espetáculo” partindo do conceito de mercadoria de Marx no Livro I do “O Capital” assevera:


“A origem do espetáculo é a perda da unidade do mundo, e a expansão gigantesca do espetáculo moderno exprime a totalidade desta perda: a abstração de todo o trabalho particular e a abstração geral da produção do conjunto traduzem-se perfeitamente no espetáculo, cujo modo de ser concreto é justamente a abstração. No espetáculo, uma parte do mundo representa-se perante o mundo, e é-lhe superior. O espetáculo não é mais do que a linguagem comum desta separação. O que une os espectadores não é mais do que uma relação irreversível com o próprio centro que mantém o seu isolamento. O espetáculo reúne o separado, mas reúne-o enquanto separado.”


Guy Debord ficaria verdadeiramente irritado vendo essa discussão imbecil sobre a SUPERLIGA na Europa ou quem sabe as entrevistas do senhor Landim, presidente do Flamengo, fazendo de tudo para promover aglomerações futebolísticas e lamentando a falta de torcida nos jogos. E por falar neste senhor como estão as indenizações para as famílias dos garotos que morreram queimados no ninho do Urubu?


Qual o valor da vida humana para os dirigentes ou donos dos clubes de futebol, para o COI, FIFA, CBF, televisões ... etc.?


Não creio que o Deixa Falar tenha errado sozinho. É possível contar em metade de uma mão os jornalistas esportivos que tomaram uma posição contrária ao espetáculo do genocídio e a TV Globo como sempre lucrando com a barbárie, termino citando e homenageando o companheiro Fernando Morais:


“Só para não deixar dúvidas: as Organizações Globo e a família Marinho CONTINUAM SENDO inimigas do Brasil e dos brasileiros e assim devem continuar a ser tratadas.”


Voltando ao velho Marx. Quando o capital emprega trabalho, em vez de o trabalho empregar o capital, os mortos assumem um poder vampiresco sobre os vivos... Tudo que você é incapaz de fazer, seu dinheiro pode fazer por você... Quanto maior o poder de meu dinheiro, mais forte sou. As qualidades do dinheiro são qualidades e poderes essenciais meus, do possuidor. Afinal, como dizia o autor de O Capital, o dinheiro é o "proxeneta universal de homens e povos", uma espécie de linguagem deturpada em que todas as qualidades humanas e naturais são misturadas e invertidas, e qualquer coisa pode ser magicamente transformada em qualquer outra.


Mas como isso é um fetiche, no que o futebol, por exemplo, acaba transformado quando a sua identidade é invertida e seus artistas da bola são marionetes em campo. O valor dos jogadores e demais componentes em ação referenda o movimento em que o animado e o inanimado trocam de lugar e os mortos tiranizam os vivos, através da "mercadoria universal", o dinheiro.


É uma pena não termos mais João Saldanha, marxista histórico que certamente bateria de frente com a CBF e lideraria uma campanha contra o futebol na pandemia.


Federações de futebol de todo Brasil, diretorias de clubes e colegas jornalistas acovardados com medo da demissão não seriam poupados por João.


João Saldanha dirigindo a seleção brasileira. Foto: 12/06/1969 AGÊNCIA O GLOBO

Raul Milliet Filho é doutor em História pela USP, professor, pesquisador, especialista em políticas sociais na área pública e editor responsável e criador do “Deixa Falar: Megafone da Cultura”.

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