O Unibanco quer mesmo comprar o futebol do Botafogo?

Atualizado: 6 de Mai de 2019

por Raul Milliet Filho*


Walter Salles e seu irmão João, banqueiros e cineastas, continuam como quem não quer nada fazendo escaramuças e soltando balões de ensaio no sentido de tornarem-se sócios majoritários do futebol do Botafogo.


Parece que eles de fato acreditam nesta fantasia em voga, para “administrar melhor o negócio”.


A verdade é que nunca acreditei no amor desses rapazes pelo centenário clube da Estrela Solitária.


E o pior é que muita gente que se diz democrata, socialista, defensora da ética no futebol acha que a saída é essa mesma. Que não tem outro jeito.


Do ponto de vista dos partidos, o PT e Lula cometeram o equívoco ao criar e sediar Copa do Mundo e Olimpíadas. E, pior ainda, é que nenhum partido, incluindo os defensores da pureza celestial do PSOL, se manifestou contra. Nem mesmo Marcelo Freixo, candidato na época a Prefeito do Rio, falou nada.


Será que é preciso lembrar que o Unibanco estava em dificuldades quando ocorreu a sua fusão com o Itaú? Melhor explicando: não foi uma fusão. O Itaú comprou o Unibanco em estado precário.


Já pensaram que isto pode vir a acontecer com o clube de futebol que cair nesta lorota? Poderia descer a detalhes como a relação dos clubes de futebol com seus jogadores e funcionários e das torcidas com os clubes de futebol. As torcidas não gritam nome de balancetes nem anunciantes. A relação dos torcedores com os jogadores e seus escudos de paixão são eminentemente amadorísticas, é o que rege a paixão clubística. Querer acabar com isto é de uma estupidez siderúrgica. Quebraria o poder simbólico que rege o futebol, transformando-o num guichê de supermercado.

Como grifou Nelson Rodrigues em crônica magistral: “A verdadeira autêntica e incontrolável paixão clubística dá a sensação de que sempre existiu e de que sempre existirá. Eis a verdade: - ela escapa do tempo. O sujeito se sente como se já fosse torcedor em vidas passadas”.


Agora, alguns sabichões me disseram: “Pombas, Raul, o Botafogo está quebrado”. Ao que respondi: “Não é só o Botafogo. Vários clubes brasileiros.”

A TV Globo, de forma lesiva, estuporou o Clube dos Treze, negociando cotas televisivas indecorosas. Só para exemplificar, enquanto Flamengo e Corinthians recebem 170 milhões de reais por ano, os clubes do terceiro escalão, dentre os quais estão Vasco, Fluminense e Botafogo, recebem 100 milhões a menos por ano. É o oposto do que ocorre na Inglaterra e Alemanha, onde as cotas não têm essa disparidade. São quase parelhas.


Se os três clubes cariocas citados mais o Bahia, Grêmio e Cruzeiro fincassem o pé, a Globo mudaria tudo bonitinho, bonitinho.


Poderia tecer e escrever várias e várias linhas na esteira do que Pierre Bordieu, Guy Debord e o próprio Marx falaram sobre a transformação da arte em mercadoria, da sociedade do espetáculo, alienação e fetiche.


Mas não vou tocar nestes assuntos por agora.


Prefiro só dizer que peitando a TV Globo, boa parte da quebradeira dos clubes estaria resolvida, sem falar numa racionalização do calendário do futebol brasileiro, não deixando, por exemplo, os irmãos Marinho transmitirem ao seu bel-prazer qualquer jogo a qualquer hora e qualquer dia.


Isso resolveria a vida não só do Botafogo, como do Fluminense, Vasco e vários outros clubes brasileiros.


Para não fugir do hábito, lembro de uma passagem de Renato Estelita e João Saldanha com Gianni Agnelli, capo e todo poderoso dono da Fiat:


Falando Agnelli, logo depois da Copa de 1958: “Quero comprar o Garrincha. Quanto custa?”


Saldanha e Estelita respondem quase em uníssono: “Com certeza o senhor não tem dinheiro para comprar o Garrincha.”


O Sr. Agnelli levantou-se não dirigindo mais a palavra aos seus interlocutores e foi embora.


Mané Garrincha ficou no Botafogo.


Certamente os irmãos cineastas e banqueiros não conhecem essa história. Ou fingem não conhecê-la.


A mercantilização em todas as esferas da vida transforma o homem em um estranho diante de si mesmo, invertendo o significado real de valor de uso e valor de troca.

Será que os irmãos Salles que contrataram uma destas empresas de auditoria para avaliar as entranhas da contabilidade do Botafogo, aceitariam que o mesmo fosse feito em seu banco. Afinal isto seria um acordo, não uma imposição.

Não custa nada lembrar o sábio Eduardo Galeano criticando com ironia e firmeza essas auditorias suspeitas. Prezado leitor, são menos de 2 minutos. Por favor, veja com atenção.




*Raul Milliet Filho é criador e editor responsável deste site, mestre em História Política pela UERJ, doutor em História Social pela USP. Como professor, pesquisador e autor prioriza a cultura popular. Gestor de políticas sociais, idealizou e coordenou o Recriança, projeto de democratização esportiva para crianças e jovens. Autor de “Vida que segue: João Saldanha e as copas de 1966 e 1970” e do artigo “Eric Hobsbawm e o futebol”, dentre outros. Dirigiu os documentários: “Quem não faz, leva: as máximas e expressões do futebol brasileiro” e “A mulher no esporte brasileiro”.

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