"Olympia”: as Olimpíadas de Hitler


Zuca Sardan

por Adriano Bidão

O documentário "Olympia", lançado em 1938, aborda as Olimpíadas de Berlim, de 1936. O filme é dividido em duas partes: "Ídolos do Estádio" e "Vencedores Olímpicos". Em 1948, recebeu a medalha de ouro do Comitê Internacional Olímpico. Dirigido por Leni Riefenstahl e financiado pelo Terceiro Reich, "Olympia" completou 78 anos de lançamento em 2016, ano em que o Rio de Janeiro sediou os Jogos Olímpicos.


O cinema de Riefenstahl é influenciado pelo movimento artístico denominado "Construtivismo Russo". Esta escola, apoiada por Lênin, liderada por Sergei Eisenstein, ganha força no cinema contemporâneo com o uso da montagem dialética, em que os planos justapostos transmitiam emoção e percepção ao espectador. Filmes como "A greve (1925)" e "Encouraçado Potemkin (1925)", ambos de Eisenstein, tinham como protagonista o proletariado representado por atores populares, travando um combate ferrenho contra um governo tirano, que acaba sendo destituído do poder. Trata-se de uma luta de um povo unido pelo espírito do comunismo presente na antiga União Soviética.


Quando se torna Chanceler, Hitler opta por financiar a realização de filmes de propaganda. Neste momento surge a figura de Leni Riefenstahl. É preciso esclarecer que não estamos igualando os pensamentos de Riefenstahl e de Sergei Eisenstein, visto que a Rússia atravessava um momento de transição política revolucionária, sintonizado com o avanço do socialismo, das utopias e da luta pelo ideal da igualdade social, movimento liderado pelo Partido Bolchevique, dirigido por Lênin até seu falecimento, em 1924. Em paralelo, na década de 1920, a Alemanha viveu um dos momentos dramáticos de sua História. Depois de uma tentativa frustrada de um golpe de Estado em 1923, Hitler é eleito Chanceler em 1933.


Assistindo ao filme "Olympia", é possível identificar a ideologia da superioridade ariana pela naturalidade das observações eloquentes do narrador buscando imprimir dramaticidade às provas, como na narração da corrida de 800 metros rasos, na qual ele destaca a emulação de "dois corredores negros contra três atletas brancos", acrescentando que o grande corredor negro Woodruff seria o favorito e o italiano Mario Lanzi a esperança da Europa. Já no final da corrida, quando os atletas negros Edward O'Brien e John Woodruff estão de fato liderando a prova, o narrador não resiste e pergunta em tom de desespero: "onde está Lanzi?".


Vemos também, no filme, Adolf Hitler aplaudindo e vibrando quando os alemães Karl Hein e Erwin Blask ganham, respectivamente, as medalhas de ouro e prata na prova de lançamento de martelo. Ironicamente, na prova final do lançamento de disco, a atleta Wajsówna, da Polônia (primeiro país invadido pela Alemanha na Segunda Guerra Mundial), perde para a alemã Gisela Mauermeyer. Derrotas alemãs também são registradas, como a emblemática vitória do atleta negro e norte-americano Jesse Owens na prova do salto à distância, na qual também compete o alemão Lutz Long. Essa é uma das cenas mais marcantes do filme, pois, afinal, apesar de Hitler ter usado as olimpíadas para tentar provar a superioridade da "raça ariana", os nazistas tiveram de assistir a Jesse Owens ganhar quatro medalhas de ouro.

O norte-americano Jesse Owens, após vencer a prova de salto em distância.

O atleta alemão Lutz Long. Ele foi derrotado pelo atleta norte-americano, Jesse Owens.

Há o registro de dois brasileiros: Ícaro de Castro Melo, na prova de salto em altura, e Catrambi, na prova de tiro ao alvo (a ida da equipe brasileira às Olimpíadas de Berlim renderia um excelente documentário. Seria um grande resgate da nossa memória e uma homenagem aos atletas que elevaram o nome do Brasil).


O atleta brasileiro Catrambi na prova de tiro.

O atleta brasileiro Castro Melo na prova de salto em altura.

Cabe ressaltar que a Alemanha saiu vitoriosa no quadro de medalhas obtendo 89 (33 de ouro) contra 56 (24 de ouro) dos EUA.

As lentes de "Olympia" captam com precisão a conjuntura conturbada da antessala da Segunda Guerra Mundial, conforme podemos ver através das fotos apresentadas neste artigo. É inegável o talento de Riefenstahl. A grande polêmica em relação ao documentário em tela está na impossibilidade de não se vincular o nome da cineasta ao de Adolf Hitler. A ex-atriz e bailarina e mais tarde mergulhadora tornou-se uma produtora e diretora conhecida mundialmente em 1932, após o lançamento do filme "A Luz Azul". Com a nacionalização da produtora "UFA" pelo Reich, o ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, via no cinema uma forma de disseminar os seus ideais por intermédio de cinejornais. O contato profissional entre Hitler e Riefenstahl começou em fevereiro de 1933. Após assistir a um discurso do Führer, Riefenstahl envia-lhe uma carta. Em resposta, Hitler convida-a para um encontro que resultou na proposta para que ela se tornasse a cineasta do partido nazista, convite antes recusado pelo diretor Fritz Lang, autor do belíssimo filme "Metrópolis" (1927). Em 1934, ela realiza "O Triunfo da Vontade", documentário sobre o sexto Congresso do Partido Nazista, em Nuremberg. Durante esse período e até o final de sua vida, Riefenstahl sempre foi acusada de ser simpatizante do nazifascismo, ao que sempre respondia limitar-se a exercer o seu ofício profissional de diretora cinematográfica. Depois de décadas sem filmar, Riefenstahl conclui em 2002 o filme "Impressões Subaquáticas". Concordamos que seja possível assistir a "Olympia" e apreciá-lo de forma artística pelas imagens e pela música, que cultuam a plasticidade dos corpos dos atletas em movimento. Mas é impossível esquecermos seu significado e sua representação como pano de fundo da barbárie do nazismo. Para alguns críticos e cinéfilos, "Olympia" transcende a política. É um filme para cinéfilos, para fãs de esportes olímpicos, jornalistas, historiadores e pesquisadores. Como descreveu a crítica norte-americana Pauline Kael: "Olympia é uma elegia sobre a juventude de 1936: ali está ela em seu desabrochar, dedicada aos mais altos ideais do desportismo – aqueles jovens que cedo demais iriam se matar uns aos outros". Em 1993, dez anos antes do falecimento de Riefenstahl, foi lançado o documentário biográfico "Leni Riefenstahl: a Deusa Imperfeita", dirigido por Ray Müller.


Adriano Bidão é cineasta, roteirista e escritor. Mestre em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Formado em Cinema pela Universidade Estácio de Sá. Autor do livro 'Reflexões Delirantes (Editora Multifoco, 2016)'. Colaborador do livro 'Vida que segue - João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970'. (Editora Nova Fronteira, 2005)





Notas do Editor do blog Deixa Falar


1. Em 1935, a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) era responsável pela organização das delegações olímpicas do País. A criação do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) neste mesmo ano provocou um conflito entre as duas entidades, que divergiram sobre quem teria a supremacia para levar os atletas brasileiros a Berlim. A disputa se estendeu e só foi decidida na véspera do embarque, depois que a CBD aquiesceu em fundir as equipes e aceitar o COB no comando desta jornada. Não é preciso dizer que todo este imbróglio prejudicou o desempenho dos 95 atletas brasileiros inscritos (sendo 6 mulheres). Os brasileiros não conseguiram conquistar nenhuma medalha, sendo a última vez que isto aconteceu. A nadadora Piedade Coutinho chegou em 5º lugar nos 100 metros livre, o mesmo acontecendo no atletismo com Sylvio de Magalhães Padilha, que ficou com a 5ª colocação nos 400 metros com barreiras.


2. As Olimpíadas de 1936 ficaram marcadas por uma disputa política entre Alemanha e Estados Unidos. Depois da Segunda Guerra Mundial até a derrubada do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, todos os Jogos Olímpicos tinham como principal pano de fundo a disputa política. A partir de 1992, nos Jogos Olímpicos de Barcelona, tem início uma nova fase com a hegemonia do capitalismo globalizado e as grandes empresas multinacionais, que passam a dominar os destinos do Comitê Olímpico Internacional e dos comitês olímpicos dos países presentes às disputas.


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