• Flávio Carneiro

Penalidade Máxima*



Por Flávio Carneiro


O som do apito do juiz ainda vibrava nos ouvidos de Lúcio. Quem o visse de perto, naquele momento, perceberia o suor escorrendo frio por seu rosto liso de menino, sob o sol de domingo no fim de tarde, ele com as mãos na cintura, estático, os olhos baixos, mirando a bola fincada na marca do pênalti. Quem pudesse, naquele instante, encostar a cabeça no seu corpo suado sentiria o descompasso da respiração, o coração dando saltos, e veria a tensão estampada nos olhos que se mantinham fixos na direção da bola, de tal modo que o simples fato de desviá-los sequer um segundo parecia significar a perda total da concentração e o chute torto nas mãos do goleiro ou por cima da trave, a bola zunindo em direção às árvores que se estendiam para além do campo.


O juiz já apitara, aquele som estridente, ele ouvira muito bem mas seus músculos pareciam inertes, sem comando, e lhe faltava ar, como se as árvores em volta do campinho de várzea invertessem a ordem natural e sugassem o oxigênio que era dele. Lúcio não precisava levantar a cabeça, mudar a direção do olhar e dar uma espiada em torno para saber, dali mesmo tinha certeza de que todos o observavam. Sabia, sem precisar ver, que os reservas sentados no banco de alvenaria à beira do campo, empurrados pelas costas pelos torcedores que se acotovelavam do lado de fora do alambrado, e mesmo os privilegiados que podiam se dar o luxo de ocupar um lugar apertado nas poucas tábuas da pequena arquibancada, ou ainda os mais ousados, trepados nas encostas do morro, mais atrás, todos eles e ainda os outros jogadores, do seu time e os do time adversário, ali em campo, e o juiz, e principalmente o velho Gaspar, ex-centroavante do Bangu e agora técnico do seu time, todos esperavam por um movimento seu, um caminhar, um correr na direção da bola, o chute, um desfecho. Nunca, porém, a distância entre as duas traves lhe parecera tão curta, nem a figura do goleiro tão imensa.

Tinha sido um jogo difícil. Decisão do campeonato estadual de futebol de várzea, sempre um campeonato duro, com mais de trinta times jogando em cada campo que nem se imagina, campos esburacados, ou cheios de bosta de cavalo, alguns até com vaca pastando durante o jogo, outros sem proteção nenhuma, a torcida do time da casa invadindo quando quer, correndo atrás do juiz ou dos jogadores do time adversário, às vezes até tiro saía, um campeonato terrível, e só aqueles dois times tinham conseguido o que muitos haviam tentado à custa de suor, sangue, suborno. O jogo era no campo do Santana Futebol Clube, na Vila da Penha, time bancado por um bicheiro da área, devoto da santa que dava nome ao time, madrinha protetora, o bicheiro fornecia uniforme, bola para treino e jogo, e de vez em quando um churrasco para a rapaziada, quando o time ganhava uma partida importante. Com a vitória naquele dia o churrasco estava garantido, o dono do time prometeu: carne de primeira, lingüiça, frango, arroz, salada de maionese, farofa, vinte caixas de cerveja, no lugar de sempre: a quadra de esportes da prefeitura. Esbanjava, era final de campeonato, valia tudo.


O Santana era um time bom, compacto, de pouca habilidade e toque de bola mas de muita força e preparo físico, só garoto, a média do time era de vinte anos, e ainda tinha o Carlos Magno, o goleiro menos vazado do campeonato, verdadeira muralha o Carlos Magno. Lúcio era centroavante do Vila da Penha Futebol e Regatas, o outro finalista. O Vila da Penha nunca tivera equipe de remo ou qualquer coisa parecida, mal conseguia pagar o aluguel do péssimo campo onde treinava e jogava, sede social nem pensar, mas tinha no nome esse “Regatas”, “Futebol e Regatas”, copiado literalmente dos times grandes: Vasco, Flamengo, Botafogo, só o Fluminense não tinha “Regatas” no nome. Copiaram e pronto, o importante era o efeito do nome sobre a torcida, e sobre os times adversários, pouco importava se a realidade oferecia ou não algum lastro para a fantasia do fundadores do time, valia o delírio. A verdade é que, apesar da pomposidade do nome, o Vila da Penha Futebol e Regatas era um time limitado, cheio de jogadores experientes mas fora de forma, e era difícil entender como tinha conseguido chegar até ali. Mas chegara, e aquele jogo era a final, o Santana jogando pelo empate, em casa, pleno favorito. Sabe-se lá por que circunstâncias, porém, “futebol é uma malinha de surpresas”, como insistia em repetir o técnico Gaspar, errando a expressão mais batida do vocabulário futebolístico, o Santana, talvez por displicência, salto alto, fora dominado o tempo todo pelo Vila da Penha, que mandou e desmandou no jogo, e só não vencia ainda porque Carlos Magno, o goleiro, a muralha que defendia o gol do Santana, jogara demais, tinha fechado o gol, salvando o time de levar uma goleada, defendendo chutes quase indefensáveis, fazendo milagre.


Mesmo com seu time dominando o jogo, Lúcio não tinha jogado tanto quanto se esperava dele, fizera uma partida apenas regular, correta, mas sem nenhuma grande jogada, nada que encantasse sequer a própria torcida. Não tinha dormido nada aquela noite, passara a noite em claro, e dormira mal também nos outros dias da semana, preocupado, tenso, ansioso. Durante a semana correu boato de que um olheiro do Botafogo assistiria ao jogo. Todo garoto sonhava com isso, ser descoberto por um observador de time grande, havia alguns que procuravam meninos bons de bola nos times de várzea, levavam para fazer um teste, normalmente o olheiro conhecia o técnico, colhia informações antes, se o garoto fumava, bebia, se era pivete, se tinha família, doença contagiosa, como eram os dentes, tudo isso mas principalmente se era craque. Seu Gaspar tinha sido jogador do Bangu, quando o Bangu era um dos grandes do Rio, junto com Flamengo, Fluminense, Botafogo, Vasco e América, conhecia muita gente no futebol, jogadores, preparadores físicos, técnicos, era amigo íntimo do técnico do Botafogo, ele dizia para os garotos de vez em quando, contando vantagem. Por que não?, Lúcio pensava, podia ser verdade, e todo mundo andava dizendo isso, devia ser verdade, disseram que o olheiro tinha uma vaga no juvenil do Botafogo, para teste, não importava a posição, tinha uma vaga, e Lúcio era o artilheiro do time, chutava bem, com a esquerda e com a direita, boa impulsão, cabeceava direitinho, sabia se colocar dentro da área, era um jogador disciplinado, seu Gaspar gostava muito dele, por que não? O olheiro estaria lá naquele domingo, e já devia ter colhido boas informações a seu respeito, pensava Lúcio, tinha uma família, trabalhava, fizera o primeiro grau, agora não estudava porque não tinha tempo mas era inteligente, boa saúde, quase nenhuma cárie, dormia cedo, não freqüentava a zona, nada de bebida, nada de cigarro, obedecia a todas as instruções do técnico, não chiava quando era substituído, aliás quase nunca era substituído, então, bastava arrasar naquele jogo e rumar de mala e cuia para o Botafogo, seguir carreira, ser um profissional. Lúcio passara as noites sonhando com o momento de vestir o uniforme alvinegro do Botafogo, imaginava cenas: o técnico lhe entregando a camisa nove, no vestiário, e dizendo: “vai lá, garoto, mostra pra eles”, ele entrando em campo com o Maracanã lotado, ele correndo com a bola dominada numa arrancada fulminante, driblando os zagueiros e estufando a rede com um chute forte de esquerda, a torcida explodindo, gritando seu nome, imaginava-se trocando de camisa no intervalo com um jogador famoso do time adversário, via-se dando entrevista, via sua foto nos jornais, na revista Placar, na televisão, as pessoas o cumprimentando na rua numa segunda-feira depois do clássico no Maracanã. Via tudo isso e quando dava por si já era hora de pular da cama, a noite tinha passado e o dia seria só de bocejos e dor no corpo moído de tanto rolar de um lado pro outro no colchão velho.


Mas de nada adiantara a ansiedade de Lúcio porque no dia do jogo, já nos vestiários, ele perguntara a seu Gaspar pelo olheiro do Botafogo e o técnico fez questão de responder alto, para todo mundo ouvir, que não tinha olheiro nenhum, ele tinha dito a semana inteira que não tinha merda de olheiro nenhum, nem do Botafogo, nem do Flamengo nem do Esporte Clube Fim-do-Mundo. Seu Gaspar adorava dizer isso, Esporte Clube Fim-do-Mundo, era assim que ele chamava qualquer time desconhecido, como se o dele fosse muito famoso, e Lúcio pensava na mentira, seu Gaspar não dissera nada daquilo durante a semana, pelo contrário, tinha confirmado a presença do olheiro, dissera que era um amigo seu, dos tempos do Bangu, chegou até a dizer a posição do fulano: “velho amigo meu, jogava de lateral direito no Bangu, na minha época, um craque, não digo o nome porque ele pediu sigilo, mas conheço bem, um puta lateral direito”, e agora aquilo, aquele balde de água fria justo na hora do jogo. Era para deixar qualquer um no chinelo, seu Gaspar percebera isso, a burrada que fizera, podia ter continuado fingindo, incentivando o time, pelo menos os jogadores mais jovens, os meninos, porque o Vila da Penha também tinha veteranos, claro, como um bom time de várzea, ter continuado iludindo os garotos com a notícia do olheiro do Botafogo, e quando atinou para o que fizera tentou consertar, dizendo que o importante era o jogo, nada de ficar sonhando com time grande. Passado o desânimo inicial a frase surtiu efeito, o pessoal se animou de novo, esqueceu o olheiro do Botafogo e entrou em campo tinindo.


Não foi apenas a má notícia pouco antes de o jogo começar que fizera Lúcio ter aquela atuação apagada justo no dia em que mais precisava se destacar, aparecer, marcar seu gol de placa. O fato de não ter que se preocupar com o olheiro teve até um efeito positivo, ele se sentiu mais leve, sem o compromisso de jogar sendo observado por um ex-craque do Bangu, lateral direito, e hoje ocupando cargo importante no futebol profissional, quer dizer, ele podia ficar mais solto, jogar o que sabia. Mas havia outra coisa, talvez fosse a presença de Rosa. Saber que sua namorada, que detestava futebol, naquele domingo escaldante de fevereiro, as praias cheias, estava lá fora, esprimida na arquibancada, sofrendo, só porque ele insistira, saber disso o deixava nervoso, chegou a se atrapalhar na hora de colocar as chuteiras, quando viu estava calçando o pé errado, o esquerdo no direito, imaginou seu rosto delicado de adolescente, branca, era muito branca, seu rosto a essa hora todo corado pelo calor, afogueado, aguardando impaciente que ele entrasse em campo e retribuísse o sacrifício. Lúcio se sentia obrigado a jogar bem, a arrebentar com o jogo, até porque do outro lado, defendendo o gol adversário, estava o canalha do Carlos Magno, um garoto de dezoito anos, moreno, alto, olhos claros, e Carlos Magno estava dando em cima da Rosa, ele sabia, todo mundo sabia. Seu Gaspar já tinha dito a Lúcio, num intervalo de treino do Vila da Penha, que quem mais ganha mulher é goleiro. Se for alto e forte, impressiona, porque além de tudo usa aquele uniforme diferente, as cores mais bonitas, a camisa de manga comprida, as luvas, e fica gritando o tempo inteiro com a defesa, dando ordens, se ainda por cima o cara for bom de bola, pronto, não tem para mais ninguém.


Lúcio tinha vinte e um anos, um velho, ele pensava, seis anos mais velho que Rosa, tendo que fazer bonito e desbancar um garoto de dezoito que não trabalha, não estuda, só joga bola, vive para isso, jogar bola, e além de tudo é muito bom, o canalha, pensava Lúcio, trincando os dentes. Antes do jogo, no vestiário, enquanto calçava as chuteiras, depois da notícia de que não haveria olheiro nenhum observando a garotada, Lúcio só pensava numa coisa: precisava fazer um gol em Carlos Magno, um gol humilhante, a bola tocada por debaixo das pernas do outro, um gol para não deixar dúvida. Depois da preleção de seu Gaspar, na hora da oração de sempre, um pai nosso rezado com todos de mãos dadas, Lúcio repetia de cor a reza e para si mesmo dizia, em silêncio: fazer um gol de placa, um gol de placa no Carlos Magno, e logo depois, em meio a um santificado seja vosso nome e um assim na terra como no céu, já se imaginava vibrando com o gol nos braços dos companheiros e, mais tarde, nos de Rosa.


Mas no jogo nada acontecia, o tempo passava e Lúcio cada vez mais nervoso. De tempos em tempos olhava de esguelha para a arquibancada, sem dar a entender aos companheiros e aos adversários que estava olhando, olhava procurando Rosa e via sua expressão suave, serena, como se nada estivesse acontecendo, enquanto ele se matava por dentro cada vez que errava um passe ou o chute saía fraco, nas mãos do seu rival. Já no segundo tempo, logo depois de mais uma defesa espetacular de Carlos Magno, Lúcio olhou firme na direção de Rosa, sem rodeios, olhou direto no rosto dela e quem sabe teria sido melhor ter continuado olhando para o campo, ou ter corrido para apanhar a bola e bater o escanteio, qualquer coisa menos ter olhado para a arquibancada e ter visto, ele não duvidou, ter visto um brilho no rosto de Rosa, como se ela despertasse de repente não para a partida mas para algo além. Rosa sorria, os dentes brancos, enluarados, sorria como se estivesse vendo um Zepellin colorido passear por trás da trave de Carlos Magno e não simplesmente o próprio Carlos Magno alçando vôo e tocando de leve a ponta dos dedos na bola, desviando sua trajetória num gesto leve e firme, de pássaro. Se fosse possível, Lúcio certamente daria a vitória, o título, as honras de artilheiro, daria tudo que um gênio qualquer desses de sonho lhe tivesse oferecido, tudo com que pudesse ter sonhado para não ver no rosto de Rosa aquele deslumbre, mas não era possível, e só lhe restava insuflar em si mesmo alguma reserva de dor, de sangue, convertê-la em energia, suar a camisa e a alma atrás de um gol que refizesse o tempo e lhe mostrasse uma outra imagem, diferente daquela.


Aos quarenta e três minutos do segundo tempo, quando o Vila da Penha já não corria mais, todo mundo morto, nem os garotos do Santana agüentavam o calor e o cansaço, o jogo já tinha acabado até para o juiz, que só esperava a bola cruzar pelo meio-de-campo para encerrar de vez a partida e dar o título ao Santana, dono da casa, Lúcio recebeu um lançamento perto da grande área adversária. Dominou a bola no chão, de costas, virou o corpo, levou dois beques na gingada, driblou mais um dentro da área, viu o goleiro crescendo para cima dele, teve calma, pensou em chutar mas preferiu tentar o drible, viu a bola colada nos seus pés vencer o goleiro, viu o gol escancarado à sua frente, preparou o último toque e quando tudo parecia certo, preciso, a alegria inevitável, o grito de gol, o delírio da torcida, a vibração de Rosa, sentiu as mãos de Carlos Magno batendo nas suas pernas, puxando, o corpo se revirando para a queda, a grama e a poeira entrando nos seus olhos, e nem sabia direito o que estava acontecendo, se estava jogando futebol ou se sonhava, quando ouviu o apito forte, convicto, corajoso, do juiz, marcando pênalti.


Deitado na grama, soterrado pelos companheiros que o abraçavam comemorando o pênalti como se tivesse sido gol, Lúcio olhou para a arquibancada. Seus olhos não se moveram voluntariamente naquela direção, foram atraídos, sugados por uma força invisível até o lugar onde estava sentada sua namorada, Rosa, apertada entre o pai e a mãe de Lúcio, que assim a protegiam de algum malandro metido a besta, havia tantos, e ela era tão meiga, delicada, só viera mesmo ao campo naquele dia porque sabia da importância daquele jogo para Lúcio. Os olhos de Lúcio encontraram os de Rosa e ela talvez nem tenha percebido no olhar do outro aquele sentimento estranho que se apossara dele de repente, uma angústia, um medo, a surpresa, a extrema surpresa, como se lhe tivessem amputado uma perna e ele só agora tivesse se dado conta do que significava isso, não ter uma perna.


Lúcio conhecia muito bem aquele campo, já tinha jogado no Santana, antes de ir para o Vila da Penha, e conhecia muito bem o goleiro, Carlos Magno, iam juntos para o treino, foram quase amigos, sabia, por exemplo, que Carlos Magno sempre arriscava um canto, nunca esperava o chute do batedor, lançava-se para a direita ou para a esquerda, aparentemente sem motivo, como se fosse alguma intuição secreta que lhe ditasse o rumo na hora da cobrança, sem método, mas tendo, sim, um método, que confessou a Lúcio num churrasco, uma vez, depois de algumas cervejas, confessou: “o cara que vai bater sempre olha para um canto antes de chutar, sempre olha, sabia?” Carlos Magno pulava sempre no lado contrário ao do olhar do batedor. Não tinha uma lógica, nenhuma explicação, era um jeito dele, se tinha que arriscar um canto, arriscava aquele para o qual o sujeito não olhasse, e levou muitos gols por causa disso, e também defendeu alguns pênaltis, e todo mundo sabe que não é obrigação do goleiro pegar pênalti, a obrigação é do batedor, a obrigação de fazer o gol, enfiar a bola na rede, então tudo que ele defendesse era lucro, e ele, afinal de contas, secretamente, tinha um método.


Lúcio também tinha um método: jamais olhar para o gol antes de bater o pênalti. Ele não desenvolvera seu método para neutralizar o de Carlos Magno, desde o começo agia assim, e na verdade, no início, nem era método, era timidez, ou medo de se deixar inibir pela cara do goleiro, muitos goleiros são debochados, cínicos, riem, fazem caretas, gestos, catimbam de todo jeito, e quando era bem garoto, e mesmo já nos seus vinte e um anos, Lúcio tinha muito medo desses goleiros, medo de se desconcentrar, de se irritar, de se deixar levar pela malícia do outro. Por isso agora, ali, na final, não olhara para Carlos Magno. Quando o técnico gritou seu nome, “O Lúcio bate, manda o Lúcio bater”, Lúcio segurou a bola e a carregou consigo olhando sempre para o chão, caminhou na direção da marca do pênalti cabisbaixo e firme, resoluto, concentrado, ignorando provocações, ameaças, atravessou o bolo de jogadores, ajeitou a bola na marca de cal, tomando o cuidado de deixá-la um pouco fora da marca para evitar que ficasse dentro do buraco, conhecia bem o campo. Lúcio era o batedor oficial do Vila da Penha, era um bom cobrador, frio, eficiente, e era a seu breve passado de jogador que recorria nessa hora, a bola aguardando.


Lembrava-se das palavras de seu Gaspar. O técnico um dia chamou Lúcio num canto, colocou a mão no seu ombro, num gesto paternal, e falou, olhos nos olhos: “Olha aqui, Lúcio, vou te dizer uma coisa, eu também fui centroavante, que nem você, você sabe disso, fui centroavante dos bons, goleador, matador, duas vezes artilheiro do Estadual pelo Bangu, glorioso Bangu, escuta e anota aí nessa tua cabeça de vento: futebol é bola na rede. Entendeu, filho? Olha, você pode driblar o time deles inteirinho, até o goleiro, mas se chutar pra fora já era, está morto, a torcida vai te arrancar o couro, vai te comer vivo. Vale gol de bico, de canela, peito, pescoço, cotovelo, até gol de bunda vale, o centroavante precisa é enfiar a bola lá dentro, fazer o gol, entendeu, é pra isso que ele serve, não é pra dar passe certo, desarmar o adversário nem nada, serve pra fazer gol, e pronto. Por exemplo, acompanhe meu raciocínio, por exemplo: você faz seis gols num jogo, vamos supor, seis num jogo só, e depois fica cinco jogos sem marcar. Qual é a sua média, meu filho, você que é bom de conta me diga: qual é a média? Justo, um gol por jogo, exatamente, uma média ótima, excelente, um gol por jogo está pra lá de bom, não é? Acontece que futebol não é matemática, garoto, se você ficar cinco jogos sem marcar a torcida te mata, e depois, o que é pior, depois te esquece, foda-se se você fez seis gols num jogo, já é passado, passou. Entendeu? Torcedor não tem memória, Lúcio, você tem que fazer gol sempre, não pode dar sopa pro azar, bobeou você chega junto, manda pro fundo do barbante, do jeito que for, entendeu, ouve o que eu te digo, presta atenção pra não esquecer: futebol é bola na rede.”.


Lúcio recuou alguns passos e esperou. Enquanto o juiz não apitava, imagens foram vindo sem ordem sua, imagens diversas passando não à frente dos seus olhos – ele só olhava o chão, a grama rala – mas numa espécie de tela interior, de modo que ele via a grama mas por dentro via também sua mãe acordando às cinco da manhã para fazer café, ele sob as cobertas tentando esticar o sono até quando desse, vendo por debaixo da porta a luminosidade, a luz da sala acesa, ouvindo o batido do chinelo da mãe caminhando até a cozinha, sentindo o cheiro do café sendo coado no coador de pano, e por fim o toque sempre igual da mãe na porta, chamando. Quantas vezes ele pensou, em manhãs sombrias, o que seria dele, do seu pai, dos irmãos quando não houvesse mais aquela mesma batida suave na porta do quarto, a mão magra da mãe parecia coberta de veludo, o som saía meio surdo mas nítido, como nenhum outro. O pão com manteiga, de vez em quando um pedaço de queijo minas meio endurecido, a geléia de mocotó no copo de vidro nos dias de treino, só ele tinha direito ao copo de geléia, os irmãos com ciúme, “ele precisa ficar forte, tem treino hoje”, a mãe dizia às segundas, quartas e sextas, e aos domingos, dia de jogo. Todos na casa sabiam disso, respeitavam, confiavam nele, esperavam dele, que às sete em ponto estava no campo esburacado do Vila da Penha, de chinelo de dedo, chuteiras na mão e a mochila com o uniforme de garçom. A mãe passara o uniforme com cuidado mas ele já deixara amarrotar no caminho, a calça preta com remendo no fundilho e a camisa branca surrada para vestir depois do treino, da chuveirada rápida, o vestiário tinha apenas dois chuveiros, dois canos na parede de onde saía água, mas ele tinha combinado com os outros, tinha prioridade, precisava correr para não chegar atrasado ao trabalho. Às dez lá estava ele no boteco pé-sujo da Rua Uruguai, na Tijuca, às dez começava seu turno, ia até oito, nove da noite, na rotina diária de anotar pedidos dos clientes, servir, limpar as mesas de lata com um pano úmido, velho, engordurado, ouvir desaforos, sofrer calotes, suportar o calor que aumentava com o ar quente do velho ventilador de teto, e o fedor do banheiro, e o cheiro enjoativo de óleo queimado vindo da cozinha, agüentar as grosserias do português, o dono, e já de noite ter que pegar o ônibus lotado para a Central, depois o trem, começar tudo de novo no dia seguinte.

Cada imagem dessas vinha e passava feito foguete, feito filme do Carlitos, e entre uma e outra voltava sempre a da mãe abrindo para ele, como se fosse criança, o pote de geléia de mocotó, a mãe enfiando a colher na geléia, fincando a colher como se fosse uma bandeira, a colherzinha tremulando na carne flácida da geléia. Lúcio às vezes ficava parado diante do copo, os olhos na colherzinha de chá que a mãe guardava para ele, ficava ali, absorto, como se estivesse longe, e a mãe ralhava, que esse menino tinha umas coisas, cada mania, acorda, meu filho!, ela dizia, e ainda assim ele continuava ali, vendo sem ver, até que o pai o chacoalhava pelo ombro com as duas mãos e Lúcio despertava, assustado, saía correndo, não podia perder o ônibus. Era assim, sempre, menos um dia, em que ele despertou olhando firme nos olhos do pai, depois da mãe, os irmãos, mais novos, ainda dormiam, olhou de um jeito diferente nos olhos do pai e da mãe e sem correria, sem pressa, sem mudar um traço do rosto, deixou correr uma lágrima fina, fria, sem motivo.


Era uma lágrima desse tipo que Lúcio sentiu vir subindo até seus olhos naquele momento de silêncio no campo do Santana, quando todos já tinham aceitado a realidade do jogo, o pênalti, os ânimos controlados, a bola na marca, esperando. O juiz havia apitado, aquele som estridente e longo, como se quisesse chamar a atenção para si próprio, o juiz, naquele instante solene em que ele era quase a estrela do espetáculo. Mas Lúcio, diferente daquela manhã em casa, com os pais, não deixou que a lágrima rolasse, e ela permaneceu suspensa, presa na engrenagem. Para não chorar, Lúcio pensou no documentário que assistira na TV, sobre Pelé. Pelé batendo pênalti, a paradinha clássica: o negão corria para a bola, o goleiro atento, os braços abertos, tensão absoluta, então Pelé parava já rente da bola, todos os músculos do corpo encaminhados para o chute e de súbito, por um décimo de segundo, por um tempo mínimo e interminável, os músculos todos retesados, a paradinha. Era fatal, porque o goleiro já começara o movimento, arriscando um canto ou simplesmente seguindo o que julgava ser o caminho da bola, sua possível trajetória. Só nesse instante, com o goleiro já vencido, Pelé tocava a bola, com carinho e firmeza, no canto oposto, aniquilando de vez, ou matando pela segunda vez o goleiro. Lúcio nunca tentara a paradinha, tinha medo, e não era o único, claro, medo de o goleiro não se mexer, ficar parado, ignorar o truque, e Lúcio se imaginava então na situação ridícula de pedir licença ao juiz, voltar seus passos, andar para trás, retomar a concentração, começar tudo de novo, debaixo das vaias da platéia.


Mas dessa vez iria tentar. Nada mais humilhante para o goleiro do que pular antes da hora, deixar o gol à mercê do batedor. Pelé humilhava, e ele iria humilhar também, precisava apagar do rosto de Rosa o sorriso desenhado que ele flagrara no meio do jogo, sorriso ofertado sem pudor para Carlos Magno naquela defesa, naquele vôo, e fazer o gol do título era pouco, precisava ser um gol de placa. Teria sido um gol de placa, isso era o que mais doía no peito magro de Lúcio, a pontada, a dor de saber que driblara três adversários numa jogada antológica, que driblara Carlos Magno, que o deixara no chão, rastejando atrás da bola, e que o desfecho, o toque final para as redes era um direito seu, lutara por isso, acordara às cinco da manhã sabe-se lá quantas vezes, sofrera, passara aquele jogo inteiro sofrendo, angustiado, e merecia ter feito o gol. Por isso o gol tinha que ter acontecido ali, naquele momento, porque as pessoas esquecem rápido, sobretudo no calor do jogo, se ele errasse o pênalti ninguém se lembraria do que acontecera minutos antes, da sua jogada de craque. E mesmo que batesse e fizesse o gol agora, de pênalti, era quase uma ofensa, uma esmola, Carlos Magno tinha tirado dele uma perna, era isso que ele entendia agora, e precisava ainda assim, aleijado, fazer seu gol de placa.


Lúcio conhecia bem o campo do Santana, de gramado irregular, cheio de buracos, pouca grama e mais capim, na verdade, um capim que crescia onde bem entendesse, e o pessoal deixava, era melhor do que a terra batida, pelo menos amaciava um pouco a queda, não deixava o corpo todo ralado, e além disso, visto de longe, parecia mesmo grama, era bom jogar num campo horrível mas vistoso, parecendo de profissional, ou pelo menos de treino de profissional. Lúcio conhecia cada um daqueles buracos, ou quase todos, já fizera muitos gols contando com a ajuda de um montinho artilheiro, a bola se desviando numa irregularidade do campo e matando o goleiro adversário, mas não esperava tanto da sorte, queria o gol por mérito seu, por merecimento. Iria bater forte, rasteiro, no canto. Nenhum goleiro pega uma bola assim, mesmo que pule no canto certo, que seja ágil, se a bola vai com força no canto, bem no canto, é humanamente impossível o goleiro alcançá-la, não dá tempo, Lúcio tinha lido isso numa crônica de jornal, ou ouvira numa entrevista, não se lembrava naquela hora, mas tinha para si que era o certo, uma verdade irrefutável, e decidiu: vou bater no canto, rasteiro, com força, e com a paradinha antes, feito o Pelé.


O juiz apitou pela segunda vez, impaciente. Lúcio olhou para a arquibancada, percebeu o rosto tenso de Rosa, “ela torce por mim”, interpretou. De relance viu o pai, a cara fechada de sempre, e a mãe rezando baixinho, o terço escondido entre as mãos. Caminhou para a bola com tudo previamente planejado, como nunca fizera antes: a paradinha, o toque forte, no canto esquerdo do goleiro, bem rente à trave, chute rasteiro, indefensável. Tinha decidido também não olhar para Carlos Magno, não olhar para as traves, para canto nenhum do gol, para que Carlos Magno ficasse confuso, não pudesse seguir seu método, queria deixá-lo caído no chão, do lado errado, queria vê-lo virando a cabeça para trás, desesperado, acompanhando a bola morrer devagarinho, mansa, no fundo da rede. Não iria olhar para ele, de modo algum, não iria. Mas olhou. Sem querer, sem poder se controlar, ergueu rapidamente os olhos, que bateram de frente com os olhos de Carlos Magno, e Lúcio viu no outro, seu rival, o medo.


Nunca tinha passado por isso, ter a exata sensação de como é alguém sentindo medo, como é o rosto de um goleiro à espera de um batedor que espera. Numa questão de segundos passou-lhe pela mente, como num filme imaginário, o que poderia ser a vida de Carlos Magno, o que teria acontecido com ele depois que Lúcio saiu do Santana e foi para o Vila da Penha, quem sabe se tivesse continuado no antigo time tivessem se tornado amigos, Lúcio praticamente não tinha amigos, só o pessoal do Vila da Penha, mas não se encontravam fora do campo, não saíam, como seria ter sido amigo de Carlos Magno, ele pensou, comovido talvez pela fragilidade no olhar do outro, olhar de cachorro com frio, na chuva, sem dono. Iria sonhar ainda muitas vezes com aquela expressão do olhar de Carlos Magno à espera da batida do pênalti. Lúcio via seu adversário se desmontando por dentro, cada víscera, o rosto de Carlos Magno permanecia inalterado mas os olhos revelavam um tremor, “as pernas dele devem estar tremendo”, Lúcio pensou, e por um momento teve vontade de nada daquilo estar existindo, ser tudo um sonho que acabasse com a mão ossuda e aveludada da mãe batendo à porta.


Não dava para voltar atrás, o primeiro movimento da perna tinha sido feito, começara com a perna esquerda, depois a direita, ainda de leve, aumentou um pouco a velocidade, correndo devagar, em câmera lenta, igual ao Pelé, um ritmo calculado, insinuando que iria aumentar a velocidade até chegar na bola, de repente desacelerou, segurou o corpo, firmou o corpo num equilíbrio difícil, só o Pelé conseguia isso, pensou, e ele acabara de conseguir. Percebeu Carlos Magno jogando o corpo ligeiramente para o canto direito, como quem ensaia o salto, sabia que o goleiro iria cair naquele canto, já o tinha sob o seu domínio, já o matara a primeira vez. Com os olhos bem abertos, vislumbrou todo o imenso espaço do lado esquerdo, tocou a bola com firmeza, convicto. Viu a bola rolando, rasteira, no rumo certo, não podia ver mas sentia no íntimo o desespero de Carlos Magno ao perceber que fora enganado, humilhado, que estava perdido, não podia voltar o corpo para o outro lado e abraçar ou espalmar a bola, completamente fora de alcance. Lúcio não pensava em nada, pela primeira vez nesse dia não pensava em nada, via apenas, saboreava a bola na sua trajetória certa, linear, até o momento em que ela, caprichosa, resvalou na borda de um buraco, uma pequena irregularidade do terreno. Estático, sem acreditar, Lúcio viu a bola desviando seu rumo até chocar-se, suave e inevitável, com a trave. .


*Texto publicado em 22 Contistas em Campo, antologia de contos brasileiros sobre futebol organizada por Flávio Moreira da Costa. Rio de Janeiro: Agir, 2006.


Pedindo escusas a Flávio Carneiro, o Deixa Falar reproduz três pênaltis, reforçando a dramaticidade que este lance carrega. Relembrando também uma frase famosa de Saldanha que asseverava: “Malandro não perde pênalti.”.


Certamente este não foi o caso de Lúcio, personagem da brilhante narrativa de Flávio.


Não custa reafirmar que João Saldanha era um grande admirador do futebol do doutor Sócrates. No entanto, tinha uma bronca muito grande com qualquer jogador que rebolasse na hora da cobrança de uma penalidade máxima. Como foi o caso de Sócrates neste lance. Mas é sempre bom esclarecer aos leitores que um ano depois, Sócrates fez questão de comparecer ao lançamento do livro “Meus Amigos”, livro de Saldanha, na ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Quem estava lá presenciou um abraço efusivo dos dois.




Escritor, roteirista e professor de literatura na UERJ. Escreveu 16 livros – entre romances, coletâneas de contos e crônicas, ensaios – e dois roteiros para cinema. É autor da “Trilogia do Rio de Janeiro”, composta pelos romances “O Campeonato”, “A Confissão” e “A Ilha”. Seu livro mais recente é um policial: “Um romance perigoso”. O editor deste blog considera “Passe de Letra”, de autoria de Flávio, um clássico sobre a literatura do futebol. Parte de sua obra foi publicada em outros países, como Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália, Portugal, Alemanha, Colômbia e México. Site do Flávio.



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Deixa Falar: Criação e Edição de Raul Milliet Filho

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