Uma fala de Janaína Diniz, filha de Leila Diniz e Ruy Guerra, que emocionará a todos


Janaína, nos lança um texto escrito e falado de emoção, delicadeza e forte posicionamento político.



Leila Diniz

Ouça e leia Janaína Diniz.




Sobre a mulher e o biquíni: o exercício da cidadania em tempos de trevas


Por Janaína, filha de Leila Diniz


Meu lugar de fala é de uma filha do biquíni. É que eu fui uma barriga grávida exposta na praia, quando a barriga grávida era escondida porque era sinônimo do pecado e não devia ser vista. A barriga grávida no biquíni fazia lembrar o ato sexual que deu origem àquela barriga, que vem a ser o ato que gera a vida. Enfim, incongruências.

O fato é que a moral exigia das mulheres dessa época o impossível: disfarçar uma barriga indisfarçável. Enfim, 47 anos se passaram desde que eu circulei em uma barriga e num biquíni que escandalizou um país moralista, de uma moral ditada pela ditadura militar. Andando bem mais pra trás, as mulheres desobedientes, as que não se curvavam ao papel determinado pra elas, que pensavam diferente, eram executadas, como exemplo de punição. O feminicídio se dava batizado como “caça às bruxas”. Eram queimadas na fogueira as que pensassem diferente do que deveriam pensar.


Para que a humanidade se libertasse disso, sutiãs foram queimados, pílulas anticoncepcionais foram liberadas, as mulheres conquistaram o direito de trabalhar fora, sendo que o trabalho de casa ainda hoje é exigido da mulher. Conquistaram o direito ao voto. Olha só, houve um tempo em que não se podia votar e as barrigas grávidas se tornaram símbolo da vida, motivo de orgulho. Mas eis que os retrógrados saíram dos seus armários – onde provavelmente sempre permaneceram –, que saem envergonhados da sua moral castradora. Talvez, envergonhados por algumas décadas. Diante da primeira oportunidade retomaram seu orgulho e ditaram as regras pra vida alheia. Encontraram como porta-voz um suposto mito que está mais para uma de nossas lendas: a “Mula sem cabeça”. Um representante de baixa capacidade intelectual, mas que vende o discurso dessa falsa moral e em troca disso muita gente anda fingindo que acha graça, aceitando a destruição de tudo, normalizando a violência e graças a acharem graça disso, nós andamos de marcha a ré na velocidade da luz.


Em menos de um ano recuamos em décadas de conquistas, em séculos de evolução, no respeito um ao outro. Se hoje toda nudez vem sendo castigada, se as nossas maravilhosas bruxas icônicas são queimadas como são nossas florestas e nossos povos originários, estão queimando nossos direitos, nosso Estado laico. Se queimam a nossa justiça, se queimam a nossa constituição, se a gente é castigado nu ou vestido por não seguir uma determinada doutrina – por não reproduzir o que nos ditam os atuais ditadores –, se tentam calar a nossa voz, se censuram a nossa arte, o fato é que não está dando se postar de biquíni, não pelo ato em si, já que o corpo feminino enquanto objeto de desejo de consumo sempre foi muito bem-vindo pelos ditadores da moral. Não está dando pra gente se postar de biquíni pelo fato de que nós somos cidadãs brasileiras que vivemos no Brasil medieval, colonial, ditatorial e diante das milhares de reconquistas que urgem, realmente dá um trabalho enorme ser cidadã no Brasil de hoje. Ah, mas nós somos!


Há quase cinco décadas o biquíni simbolizou uma libertação. Hoje, com tanta destruição que exige da gente um estado de alerta e de luta por todos os direitos roubados, dia sim e dia também, o biquíni por hora está simbolizando uma alienação e não está dando pra gente se postar de biquíni. Infelizmente, digo eu, filha de um biquíni, super, hiper, mega postado, mas o que não está dando mesmo nos tempos de hoje é pra gente se dar ao luxo de não ser cidadã.


Criador e editor responsável deste blog, mestre em História Política pela UERJ, doutor em História Social pela USP. Como professor, pesquisador e autor prioriza a cultura popular. Gestor de políticas sociais, idealizou e coordenou o Recriança, projeto de democratização esportiva para crianças e jovens. Autor de “Vida que segue: João Saldanha e as copas de 1966 e 1970” e do artigo “Eric Hobsbawm e o futebol”, dentre outros. Dirigiu os documentários: “Quem não faz, leva: as máximas e expressões do futebol brasileiro” e “A mulher no esporte brasileiro”.

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