Capitalismo selvagem e a chacina no Jacarezinho: aprofundando o tema

Atualizado: Jun 3

por Raul Milliet Filho



“A História é a mais importante das ciências,

sem História não há realidade objetiva”

(César Lattes)




A maioria dos jornalistas, professores e lideranças comunitárias que analisou a chacina do Jacarezinho, partiu de premissas metodológicas, no mínimo, incompletas.


É evidente a violência da polícia, a desumanidade de seus procedimentos e a barbárie instalada no corpo da polícia civil e da polícia militar que precisam e devem ser criticadas com veemência.


Já está clara a atitude da polícia civil do Estado do Rio de Janeiro que pretende manter em sigilo por cinco anos as investigações das 28 mortes cometidas. O Human Rights Watch denuncia sem meias palavras a chacina no Jacarezinho.


Agora ficar apenas circunscrevendo o assassinato de 27 moradores do Jacarezinho às práticas policiais é um ledo engano. Como se uma favela não tivesse nas raízes de seus problemas um encontro marcado com os primórdios de sua história.


Com a anarquia do planejamento urbano de uma sociedade capitalista fruto da anarquia de suas forças produtivas.


Neste caso recorremos mais uma vez a Eric Hobsbawm: “O historiador das ideias pode (por sua conta e risco) não dar a mínima para a economia e o historiador econômico pode não dar a mínima para Shakespeare, mas o historiador social que negligencia um dos dois não irá muito longe.”


No caso específico do Jacarezinho a cultura popular e principalmente o emprego, devem nortear a investigação de qualquer interessado em chegar às raízes dos problemas. Nada pode ser separado dos modos pelos quais os homens obtêm seu sustento e sua base material de existência.


Voltando ao autor de “Era dos Extremos”, “em outras palavras não é possível nenhuma discussão séria da história que não se reporte à Marx, ou que não parta precisamente de onde ele partiu e isso significa, basicamente, uma concepção materialista da história.”


Não vi ninguém ponderando que a inexistência de uma ampla reforma agrária no Brasil infla os centros urbanos, provocando o acirramento das contradições principais em moradias insalubres sem a presença do Estado. Afinal, desde o Consenso de Washington (1989) a participação do Estado como indutor do desenvolvimento econômico passou a ser um sinônimo de estupidez.


A APML no Jacarezinho


Em outro artigo do Deixa Falar, Memórias de uma militância clandestina durante a ditadura militar, relembramos a atuação na fábrica da Companhia de Comércio e Construções. Aproveitando o triste episódio da chacina no Jacarezinho emendamos de bate-pronto com um trabalho em várias favelas no Rio de Janeiro.


Em 1974, a APML (Ação Popular Marxista Leninista) iniciou uma série de atividades no Jacarezinho em parceria com a Igreja Católica (recordando sempre o querido Padre Nelson Del Mônaco) e outras organizações de esquerda.


Curso supletivo, consultórios médicos, campeonatos de futebol de favelas, festivais de música, rodas de samba, concurso de redação e de poesia - tudo isso e mais um pouco fazia parte de uma iniciativa que durou por longo tempo, tendo como referência a Igreja do Padre Nelson que fica até hoje no cume do morro do Jacarezinho.


Padre Nelson Carlos Del Mônaco

Daí, posso dizer que conheço o Jacarezinho como a palma da minha mão.


Tive a honra de participar deste trabalho com o apoio de Marisa Sobral, Orlando Guilhon, Fernando Moura e participantes especiais como a enciclopédia do futebol Nilton Santos, João Saldanha, conjunto Coisas Nossas dentre muitos.


Ia esquecendo, mas o apoio à Associação de Moradores local e à Comissão de Luz foi outro ponto do qual sempre nos orgulhamos. Explicando melhor, a Light levava a luz até a porta das favelas. As Comissões de Luz redistribuíam para cada residência a energia elétrica, instalando medidores (relógios). A conta de luz paga à Light era apenas uma e no caso específico do Jacarezinho contava com o trabalho probo e dedicado de uma grande liderança popular, o Santinho, presidente da Comissão de Luz.


Jacarezinho, Borel, Vigário Geral, Formiga, Cabritos foram espaços de convivência e de trabalhos inesquecíveis que nós da APML desenvolvemos.


E como esquecer dos campeonatos de futebol entre as favelas do Rio? As finais sempre disputadas no campo em frente ao Borel, ali mesmo, na Rua São Miguel com a presença ilustre de várias personalidades do futebol. O supercampeão foi o Verão Vermelho, time de respeito que dentre vários craques revelou Carlos Alberto Pintinho.


Finais cujas preliminares eram tão concorridas quanto os jogos principais. Também pudera, um time de craques do passado como Nilton Santos jogava contra um time local. Tendo nos comentários, em uma Kombi com alto falante, ninguém menos que João Saldanha. A plateia aplaudia e vaiava e Saldanha interagia com todos.



Um trabalho de utilidade pública e diversão: jovens e adultos também aprendiam a nadar


Numa cidade à beira-mar, saber nadar além ser tudo de bom, é um seguro de vida. Na minha infância cansei de ouvir de vários salva-vidas que os banhistas que mais se afogavam não sabiam nadar e em geral vinham de moradias na zona norte, zona suburbana e baixada.


No Jacarezinho, conversando com alunos do curso supletivo e com os seus filhos e parentes em reuniões festivas, foi possível concluir rapidamente que a maioria nunca tinha tido nem mesmo uma breve orientação de natação.


Conseguimos duas piscinas e instrutores de natação e ao longo de um ano e pouco foi possível ensinar cerca de 100 garotas e garotos a nadar com prova final, diploma e tudo mais. Nas ocasiões festivas de entrega dos diplomas, estava sempre presente o companheiro e querido tio, João Saldanha, que não disfarçava sua alegria e emoção entregando um a um os diplomas ao lado do Padre Nelson.


Ao todo foram treinados 1.200 adolescentes e adultos em cursos de natação.


Logo após a primeira leva de "diplomados", fizemos um passeio à Praia do Arpoador. Com pais e alunos, aplaudidos pelos salva-vidas e pelo próprio Padre Nelson, que tinha conseguido duas ou três Kombis, não me lembro bem, para conduzir a todos até o mergulho libertador.


Não sei se foi o mais importante trabalho que eu tive a oportunidade de realizar, mas de longe, foi o que me deu mais contentamento e felicidade.



Sobre a chacina no Jacarezinho


É preciso fazer uma análise adequada do que aconteceu na favela do Jacarezinho.

O terreno, onde ficavam as primeiras casas edificadas no início da década de 1920, pertencia à família Vargas, que o doou para trabalhadores do entorno.


As casas foram levantadas na parte de cima do Morro como forma de proteção, assim a perseguição e remoção se tornava mais difícil.


O Jacarezinho, antigo quilombo urbano, tinha duas fábricas em dois lados da favela.


Daí tem início a sua história de ser a comunidade com proporcionalmente o maior número de habitantes afrodescendentes no Rio de Janeiro.


Hoje o Jacarezinho tem em torno de 37 mil moradores.


No final dos anos 20 é inaugurada a General Electric (GE), fábrica de lâmpadas, edificada em Maria da Graça, um dos lados do Jacarezinho.


A Cisper, fábrica de vidros, copos e garrafas, foi fundada na saída pelo Jacaré, no outro lado do Jacarezinho. A Cisper pertencia ao grupo Monteiro Aranha e cresceu em parceria com a Brahma.


Em torno dessas duas fábricas cresceu a favela do Jacarezinho.


A GE e a Cisper cresceram e na década de 1970 empregavam 2500 trabalhadores. A saber, 1500 e 1000, respectivamente.


No início dos anos 70, o Jacarezinho tinha uma população de 20 mil moradores.


Por motivos variados, principalmente o avanço da economia poupadora de mão de obra fruto do Toyotismo, GE e Cisper começaram a mudar seus perfis.


A GE, por volta de 2007, encerra suas atividades no local e transfere sua linha produtiva para outros países. São menos 1500 empregos diretos no Jacarezinho e entorno.


A Cisper terceiriza suas contratações, reduzindo em pelo menos 50% o número de empregados.


Por outro lado, em paralelo à falta de empregos que inicia o processo de pulverização das estruturas familiares locais, um outro fator de crise não pode passar ao largo.


O equívoco crasso e a estupidez da política de criminalização da maconha, ao contrário do que foi feito em outros países, como o Uruguai, por iniciativa do estadista Pepe Mujica.


Esse é um perfil apenas introdutório da transformação do Jacarezinho em uma favela violenta e estigmatizada pelo preconceito racial e social.


Até mesmo a Folha de São Paulo em seus editoriais apontou a necessidade de uma nova visão do tratamento da política de criminalização das drogas.


Sobre estes dois assuntos concluímos com uma advertência do Papa Francisco e uma música do Gonzaguinha (Um homem também chora) que aprofundam com sensibilidade e competência essa questão do emprego em tempos de neoliberalismo.




E por fim uma fala clara, objetiva e verdadeira de uma conhecida liderança comunitária desta histórica favela, berço de Monarco e outros bambas do Samba.


O Deixa Falar subscreve a sua luta pela descriminalização da maconha e pela presença do Estado na garantia do emprego, educação, saúde e cultura.


Em próximas postagens, aprofundaremos o Fordismo, o Taylorismo, o Toyotismo e o Póstoyotismo na visão de Braverman e Ricardo Antunes.


Raul Milliet Filho é Historiador, criador e editor responsável deste blog, mestre em História Política pela UERJ, doutor em História Social pela USP. Como professor, pesquisador e autor prioriza a cultura popular. Gestor de políticas sociais, idealizou e coordenou o Recriança, projeto de democratização esportiva para crianças e jovens. Autor de “Vida que segue: João Saldanha e as copas de 1966 e 1970” e do artigo “Eric Hobsbawm e o futebol”, dentre outros. Dirigiu os documentários: “Quem não faz, leva: as máximas e expressões do futebol brasileiro” e “A mulher no esporte brasileiro”.

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