Como se mede a grandeza de um clube de futebol?


*Marcelo Weishaupt Proni


O debate não é novo. Mas, voltou a agitar a mídia esportiva, recentemente. Afinal, quais critérios devem ser usados para identificar os clubes de futebol que podem ser classificados como “grandes”, hoje, no Brasil?


Não há consenso. Os jornalistas e comentaristas esportivos que se manifestam sobre o tema defendem diferentes pontos de vista. A principal divergência pode ser resumida assim: para uns, o número de clubes que merecem ser denominados “grandes”, atualmente, vem se reduzindo; para outros, o conjunto dos chamados “grandes” continua reunindo 12 clubes; e há alguns que apontam a ampliação desse conjunto ao longo do tempo.


É evidente que muita coisa mudou na sociedade brasileira, nas últimas décadas, alterando o modo como os fenômenos culturais são interpretados e, inclusive, os critérios de avaliação do “valor” das pessoas e das instituições. No caso do futebol, muitas mudanças ocorreram à medida que foi se desenvolvendo o “futebol-empresa”. Por isso, é compreensível que a forma como a mídia esportiva vê o futebol também tenha se modificado.


Até a década de 1960, os clubes protagonistas no cenário nacional eram basicamente os clubes de maior torcida do Rio de Janeiro e de São Paulo. A partir da década de 1970, quando foi criado o Campeonato Nacional, Minas Gerais e Rio Grande do Sul passaram a ser considerados centros futebolísticos importantes. Dois critérios eram usados pelos formadores de opinião pública para chamar um clube carioca, paulista, mineiro ou gaúcho de “grande”, naquela época:

1) tradição no respectivo campeonato estadual (clubes “grandes” disputavam títulos e tinham uma história de rivalidade nos “clássicos”) e

2) capacidade de montar times que contavam com os principais ídolos do futebol brasileiro (clubes “grandes” forneciam jogadores para a seleção nacional).


Em 1987, quando foi criado o Clube dos 13, os clubes fundadores foram: Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco da Gama. A imprensa esportiva (especialmente a carioca e a paulista) costumava classificar esses clubes (menos o Bahia) como os principais protagonistas do futebol brasileiro. Ou seja, nessa época, predominava o entendimento de que havia 12 “clubes grandes” em âmbito nacional, ainda que um número maior de clubes fizesse parte da “elite nacional” (composta pelos clubes que disputavam regularmente a primeira divisão do Campeonato Brasileiro). Por exemplo, o Coritiba (campeão nacional em 1985) e o Guarani (campeão nacional em 1978 e vice-campeão em 1986) não eram considerados “grandes”. O título do Bahia, em 1988, também não foi suficiente para alterar o seu status na imprensa esportiva comandada por cariocas e paulistas.


A década de 1990 foi marcada pela Lei Zico (1993) e pela Lei Pelé (1998), que estimularam a transição para o “futebol-empresa”. Com o passar do tempo, foram aumentando as receitas com patrocínios e com direitos de transmissão, o que provocou um aumento progressivo na desigualdade financeira entre os clubes de futebol da elite nacional. Desde então, apenas clubes com elevado poder de investimento – os que possuem mais dinheiro para formar um time competitivo – conquistaram o título de campeão nacional (a única exceção foi o Atlético Paranaense, em 2001).


É importante enfatizar que a transmissão dos jogos pela televisão priorizou os clubes “grandes” e deu maior visibilidade para os times mais populares. A maioria dos telespectadores não tinha acesso aos canais da TV por assinatura. Desse modo, ao longo das últimas três décadas, a prioridade na transmissão pela TV aberta para jogos de times cariocas e paulistas (em especial, o Flamengo e o Corinthians) acabou reforçando a concentração de torcedores (ou fãs) em poucos clubes. Até a distribuição do tempo dedicado a cada time nos programas esportivos diários da televisão e do rádio passou a ser pautada no tamanho estimado das torcidas (isto é, do público potencial).


Após a desativação do Clube dos 13, em 2011, a desigualdade financeira entre os clubes de futebol da elite nacional se ampliou ainda mais. E aumentou inclusive a distância orçamentária entre os clubes “grandes” mais populares (que obtêm as maiores receitas com direitos de transmissão e com patrocínios) e os demais clubes “grandes” (que recebem menos da TV e não conseguem equiparar as receitas de patrocínios porque têm menor visibilidade na mídia). Evidentemente, tais desigualdades no poder de gasto agravam o desequilíbrio no nível de competitividade dos clubes que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro.


Sem dúvida, muita coisa mudou no futebol brasileiro, nos últimos 30 anos. Há muito tempo, os clubes da elite nacional deixaram de contar com os principais ídolos da seleção brasileira. Por outro lado, passaram a buscar protagonismo no cenário internacional, dando enorme importância para a disputa do título da Copa Libertadores da América (e, em grau menor, para a Copa Sul-Americana). É nesse contexto que estão mudando os critérios para classificar um clube como “grande”.

Atualmente, o conjunto dos clubes considerados “grandes” pela maioria dos comunicadores mais influentes continua reunindo os fundadores do Clube dos 13, embora o Bahia permaneça excluído e o Athletico Paranaense venha se qualificando para assumir novo status. Mas, alguns analistas alertam para a tendência de redução desse conjunto na próxima década, se alguns desses clubes não conseguirem equacionar suas dívidas, nem atrair investidores de peso.


Se houvesse uma distribuição mais equilibrada do dinheiro pago pelos direitos de transmissão dos torneios nacionais, se houvesse uma distribuição mais equânime do tempo de exposição dos times na televisão, se houvesse um teto salarial para a formação dos elencos, é provável que mais clubes da elite nacional se fortalecessem e que o número de clubes “grandes” se ampliasse. Contudo, não há qualquer iniciativa nesse sentido, nem da parte da CBF, nem da Rede Globo, nem dos clubes que hoje monopolizam o mercado do futebol brasileiro.


Ao contrário, a grandeza dos clubes está sendo redefinida basicamente pela sua capacidade de faturamento e pela qualidade da gestão financeira. É provável, inclusive, que o critério econômico combinado com o descompasso no nível de competitividade esportiva leve a imprensa especializada a eleger os “Big 6” (ou algo similar).


Do ponto de vista da mídia esportiva dominante, o importante é se um clube desempenha papel de protagonista ou coadjuvante no cenário nacional (e, agora, sul-americano). Mas, do ponto de vista dos torcedores, a grandeza de um clube se baseia na sua história, na forma como conquistou suas vitórias e no modo como superou suas derrotas. Os clubes “grandes” do futebol brasileiro são aqueles que possuem ídolos inesquecíveis, que são recebidos por torcidas apaixonadas em diversas cidades do País e que conquistaram o respeito e a admiração de várias gerações de comentaristas.


Para refletir: assim como o “valor”de um político não pode ser avaliado pelo saldo da sua conta bancária, nem pelo seu atual índice de popularidade, nem pelo sucesso momentâneo (ou fracasso episódico) em sua trajetóriana esfera pública, também não parece correto medir a “grandeza” de um clube utilizando tais critérios.



*Marcelo Proni: Professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit). É doutor em Educação Física e tem vários estudos publicados na área de Economia do Esporte. Autor do livro “A metamorfose do futebol” e coautor do livro “Impactos econômicos de megaeventos esportivos”.




Nota do editor:


Desde o início, o Deixa Falar se propôs a ser um site democrático e plural, que deixa claras suas posições. O artigo do professor Marcelo Proni enseja um ampla discussão que já começou com o artigo: O Unibanco quer mesmo comprar o futebol do Botafogo? O debate está aberto.

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