"Eles não gostam de futebol"

Este título é de uma crônica de João Saldanha publicada no Jornal do Brasil, em 27 de junho de 1982.


Nela critica e desanca aqueles que dizem que “o futebol é negócio empresarial como outro qualquer”.


“Isto é absolutamente falso”, complementa João.

João Saldanha por Zuca Sardan.

Estaria furibundo, soltando fumaça pelas narinas diante de coleguinhas e torcedores defensores do projeto clube-empresa.


Refiro-me a Rodrigo Maia, Pedro Paulo, Carlos Augusto Montenegro e outros, até da equipe aqui do nosso Deixa Falar. Quem quiser apareça para o debate. A bronca é livre, mas a rasteira não. Quem quiser venha em cima, mas guarde embaixo.


Já publicamos um artigo aqui descendo o sarrafo e outros virão. Fico pasmo com amigos flamenguistas e de outros times que não percebem a postura aética da Rede Globo remunerando as cotas televisivas de maneira absolutamente desproporcional. Uma pergunta: por onde anda Marcelo Campos Pinto? O outrora todo poderoso mandachuva do esporte do “plimplim”.


Aguardem!


Como observou Pierre Bourdieu em seu livro “Sobre a Televisão”:


"Assim também, no jogo esportivo, o campeão [...] é apenas um sujeito aparente de um espetáculo que é produzido de certa maneira duas vezes: uma primeira vez por todo um conjunto [...] encenadores de todo o cerimonial, que concorrem para o bom transcurso da competição esportiva [...]; uma segunda vez por todos aqueles que produzem a reprodução em imagens e em discursos desse espetáculo no mais das vezes sob a pressão da concorrência e de todo o sistema das pressões exercidas sobre eles pela rede de relações objetivas na qual estão inseridos."

Como já disse Luiz Gonzaga Belluzzo:

"Só os beócios não entendem que o capitalismo, enquanto sistema de integração social através da apropriação da riqueza, é totalitário. Hoje em dia, aliás, é perigoso contestá-lo, sem ser imediatamente ridicularizado e desqualificado. Então, os negócios começam a invadir o ensino básico, universitário, a saúde, o esporte, o lazer e, numa escala industrial, a família ou o amor familiar. Ocorre aqui uma ruptura insuportável em relação à experiência imediata, mais afetiva e em escala humana."

Causa espécie que amigos e demais torcedores de clubes aquinhoados – com cerca de 10 vezes mais recursos que seus adversários, através das cotas televisivas – se iludam com esta distorção.


Ocorre uma naturalização do mundo do futebol, alienando o jogo praticamente imposto pela Rede Globo.

Isto acaba por transferir aos dirigentes dos clubes que recebem em média menos 100 milhões de reais por ano do que Flamengo e Corinthians, por exemplo, a responsabilidade de fazer mágica, montando times igualmente repletos de bons jogadores.


Assim é fácil. Afirmo sem medo de errar que com mais 100 milhões por ano montaria times de primeira linha para Botafogo, Fluminense e Vasco.


Mas voltaremos ao tema, contestando todos aqueles que por receio político ou desconhecimento não entenderem que a aliança de Flamengo e Corinthians com a Rede Globo provoca este oligopólio no futebol brasileiro. Repetindo: É uma calúnia afirmar que o Botafogo, por exemplo, está insolvente por incapacidade administrativa. As dificuldades financeiras do Botafogo advêm da incapacidade política de seus dirigentes, que se mantém inertes perante o pseudo-poderio do “plimplim”.


Para quem insiste em bater na tecla da incapacidade atávica de tudo que não é empresa capitalista, não custa voltar ao óbvio: depois da sua privatização a Vale do Rio Doce conseguiu o prodígio de provocar o genocídio cultural, ecológico e humano com mais de 250 mortos.


Para quem discorda e cerra fileiras nas hostes dos democratas e socialistas, cabe o engajamento na guerra de posição, dentro da acepção gramsciana, contra o arbítrio e a erosão dos bens culturais de uma nação, como são os clubes de massa do futebol brasileiro.



Criador e editor responsável deste blog, mestre em História Política pela UERJ, doutor em História Social pela USP. Como professor, pesquisador e autor prioriza a cultura popular. Gestor de políticas sociais, idealizou e coordenou o Recriança, projeto de democratização esportiva para crianças e jovens. Autor de “Vida que segue: João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970” e do artigo “Eric Hobsbawm e o futebol”, dentre outros. Dirigiu os documentários: “Quem não faz, leva: as máximas e expressões do futebol brasileiro” e “A mulher no esporte brasileiro”.

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