Modéstia à parte, meus senhores… Noel Rosa, fez um samba no Leblon

Atualizado: Set 22

Por Carlos Didier


O Leblon pode se orgulhar de ser o berço de uma criação de Noel Rosa. A fonte é o próprio poeta: “A história desse samba está contada nele mesmo. Tudo isso é verdadeiro” (O Globo, 31/12/1932). Um samba que pode ser o primeiro composto no bairro.



O fato aconteceu certa noite, meses antes da entrevista ao jornal, depois de um encontro inesperado do compositor com Clara, antiga namorada, em festa na rua Conde de Bonfim, Tijuca. A dona da casa, sem saber do namoro, apresentou-os como se fossem desconhecidos. Clarinha, acompanhada de um rapaz alto e magro, de olhos azuis e cabelos castanho-claros, estendeu, um tanto sem jeito, a mão:


— Muito prazer.


— O prazer é todo meu, foi a resposta que ouviu.


Para Noel Rosa, então com 21 anos de idade, a festa acabou naquele momento. Retirou-se. Depois de uma cerveja no Café Ponto Chic, em companhia de dois amigos, os irmãos Arnaldo e Antônio Araújo, testemunhas do cumprimento protocolar de Clarinha, partiu para o Leblon. Para beber uísque e compor um samba.


Como era o Leblon que recebeu Noel Rosa em 1932? Um tanto difícil de precisar. Fotografias de Augusto Malta, tiradas em 1928 e 1934, mostram uma região em intensa transformação: em fins da década de vinte, um areal em início de urbanização; em meados da de trinta, com várias casas erguidas. Sabe-se que o Hotel Leblon e o canal existiam. E que uma ponte, entre as avenidas Delfim Moreira e Viera Souto, já ligava o bairro a Ipanema. O mais provável, porém, é que o sambista tenha se aproximado pelo outro lado, o do Jardim Botânico. De bonde, o mesmo transporte que o conduzira à festa na Tijuca.


Noel Rosa chegou ao Leblon com sede de bebida forte. Entrou num bar e pediu uísque, “porque não havia uma bebida nacional desse gênero”. São palavras suas. Queria cachaça ou conhaque, na certa. Acendeu um cigarro e descansou o chapéu de palha na mesa. Deu uns goles e cantarolou baixinho. Nascia, assim, “Prazer em Conhecê-lo”.


Aqui na voz de Mário Reis, um dos interpretes preferidos de Noel, para quem o compositor da vila fez sob medida “Filosofia”. Mário Reis é sempre importante frisar, foi precursor neste estilo de interpretação que mais tarde veio a ser lapidado, aperfeiçoado, e consagrado por João Gilberto.



Prazer em Conhecê-lo


Quantas vezes nós sorrimos sem vontade

Com o ódio a transbordar no coração,

Por um simples dever da sociedade,

No momento de uma apresentação.

Se eu soubesse que em tal festa te encontrava,

Não iria desmanchar o teu prazer.

Porque, se lá não fosse, eu não lembrava

Um passado que tanto nos fez sofrer.

Lá no canto, vi o meu rival antigo,

Ex-amigo,

Que aguardava o escândalo fatal.

Fiquei branco, amarelo, furta-cor,

De terror,

Sem achar uma ideia genial.

Ainda lembro que ficamos, de repente,

Frente a frente,

Naquele instante, mais frios do que gelo.

Mas, sorrindo, apertaste a minha mão,

Dizendo, então:

“Tenho muito prazer em conhecê-lo”.

Mas notei que alguém impaciente,

Descontente,

Ia mais tarde te repreender.

Tão ciumento que até nem quis saber

Que mais prazer eu teria em não te conhecer.


Arnaldo Araújo, o amigo de Vila Isabel, garantia que a música começara a nascer ainda no Café Ponto Chic. É possível. Para O Globo, no entanto, Noel Rosa afirmou que tudo acontecera no Leblon. De qualquer forma, antes da deliciosa gravação de Mário Reis (quem melhor que ele para criticar a “sociedade”?), houve tempo para que Custódio Mesquita, compositor de talento, então em início de carreira, contribuísse na melodia e na harmonia. Ambos, Noel e Custódio, assinam a obra.


Para o repórter de O Globo, que colheu a entrevista no estúdio de uma estação de rádio, o poeta interpretou “Prazer em Conhecê-lo” ao violão “com voz fraca e cheia de melancolia”. E fechou seu depoimento ao vespertino com um comentário: “Sem dúvida, foi fácil fazer esse samba. Havia um motivo e a bossa não falhou”.


Afinal, que bar teria acolhido a infalível bossa de Noel Rosa? Teria sido o do Hotel Leblon? Não há como saber. Uma coisa, porém, é inquestionável: não seria má ideia o bairro homenagear seu sambista pioneiro. Com um cantinho qualquer, uma esquina talvez, quem sabe com uma pequena praça chamada “Prazer em Conhecê-lo”.


O Deixa Falar fecha esta matéria homenageando Carlos Didier (Caola) e Luita Didier. Aqui interpretam “Espera Mais Um Ano”, no “Conjunto Coisas Nossas”.



Consideramos Carlos Didier, sem dúvida alguma, o maior biógrafo da música popular brasileira. Da sua lavra partiram “Noel Rosa: Uma Biografia” em parceria com João Máximo e “Orestes Barbosa, Repórter Cronista E Poeta” e “Nássara passado a limpo”.

Como se não bastasse o seu talento de pesquisador e escritor, Caola é um intérprete raro. Com os livros de “Orestes” e “Nássara” conquistou dois Jabutis.


*Carlos Didier é historiador da música popular brasileira e da cidade do Rio de Janeiro. Engenheiro e músico é autor de “Noel Rosa, uma biografia” (em parceria com João Máximo); de “Orestes Barbosa, cronista e poeta” (prêmio Jabuti de biografias) e “Nássara passado a limpo” (prêmio Jabuti de biografias), além de várias outras publicações. Foi um dos fundadores do grupo musical “Coisas Nossas” que fez história interpretando a obra de Noel Rosa.




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