Os caminhos de Eneida

Atualizado: Jul 14


Precursora na luta pelos direitos das mulheres no Brasil


Por Raul Milliet Filho



Eneida de Moraes

“Quem seria aquela mulher de fala dura e enérgica?” – indagou Graciliano Ramos aos amigos e companheiros de prisão nos períodos mais duros do “Estado Novo”.
Prossegue Graciliano: “[...] quem seria a criatura feminina de pulmões tão rijos e garganta macha [...] Foi Valdemar Bessa quem me satisfez a curiosidade: a mulher de voz forte era Eneida. E apertava-se uma dúzia delas na sala 4. Olga Prestes, Nise da Silveira, Elisa Berger, Cármem Ghioldi, Maria Werneck, Rosa Meireles, outras”.[1]


Aquela mulher de olhos verdes e personalidade pulsante era Eneida, nascida em Belém em 1904, batizada como Eneida Vilas Boas Costa; depois do casamento, Eneida de Moraes. Tempos depois, só Eneida.


Essa nossa personagem foi uma mulher incomum, parecia “à frente do seu tempo” – mas era uma importante face de seu tempo. Procurando com lupa em todos os rodapés das conjunturas históricas que viveu, salta aos olhos a pluralidade e a riqueza de sua trajetória, sempre na contracorrente dos preconceitos do mundo e do Brasil. Mãe, militante, artista, jornalista, escritora e carnavalesca. Muitas faces em uma só mulher.


Ainda criança, sai de Belém para estudar interna no colégio Sion, em Petrópolis, Rio de Janeiro, onde é submetida a uma educação disciplinadora e rígida, com imposições próprias dos ditames das escolas mais tradicionais.


Em 1919, perde sua melhor amiga, a mãe Júlia, acometida pela gripe espanhola.

Para conhecer quem foi Eneida de Moraes, é indispensável recuar a sua infância, quando foi obrigada pela avó a vestir azul e branco até completar 15 anos.


Mergulhando em “Promessa em Azul e Branco”, conto de Eneida, transformado em curta-metragem em 2013 pela diretora paraense Zienhe Castro (exibido em mostra paralela no Festival de Cannes), é possível desvendar esta passagem de sua vida por meio da prosa delicada e forte da escritora.


[...] Sim, sim, recordo muito bem; vestia apenas azul claro e branco e, de início, minha infância turbulenta e sadia não prestou atenção ao fato. Um dia, naturalmente, uma outra menina ou talvez a governanta ou – quem sabe? – a professora chamou-me ao conhecimento dessa prisão. Isso naturalmente deve ter acontecido num momento em que nascia a minha vaidade. Senti ou mostraram-me que todas as meninas da minha cidade, de meu país e do mundo usavam roupas de cores diversas e eu não. Por quê? Por quê? Perguntei à minha mãe, sempre pronta a responder às minhas perguntas:

- Foi uma promessa. Seu pai andou mal, muito mal, quase morria e sua avó fez uma promessa a N.S.ª de Nazaré: se ele sarasse, se vivesse, você, que acabara de nascer, vestiria até os quinze anos somente vestidos azul-claros e brancos.

- Até quinze anos? Então quer dizer que vou ficar assim, diferente de todas as meninas até ficar velha?

(Sempre se acha aos seis anos que ter quinze é estar velha). Só depois, muito mais tarde é que aprendi que a vida passa depressa, é curtinha, tão pequenina que nem dá para se viver plenamente todos os momentos [...]

Eneida descreve as pegadas de sua caminhada neste e em outros contos e crônicas. Pouco antes do falecimento de sua mãe, retorna a Belém em 1918.O retorno de Eneida a Belém nos remete obrigatoriamente aos trabalhos de Eunice Ferreira dos Santos, estudiosa da nossa personagem, autora do livro Eneida: memória e militância política e da tese de doutorado “Eneida de Moraes: militância e memória”, pela Faculdade de Letras da UFMG. Assinala Eunice:


“Eneida voltou a Belém em 1918, época de profundas mudanças na sociedade belenense. Mudanças que incluíam, entre outros, o aparecimento de associações literárias, revistas e jornais; o ressurgimento da Academia Paraense de Letras; a fundação da Associação de Imprensa do Pará. É também o ano de circulação de duas importantes revistas locais: Guajarina e A Semana”.[2]

Novos ventos


Os ventos do Modernismo, da Revolução Russa, dos novos rumos das artes plásticas aportavam em Belém. A veia literária de Eneida já brotara desde o tempo do colégio Sion. Em troca de chocolates e outras guloseimas, ela escrevia cartas amorosas pelas colegas. Em paralelo, estabeleceu uma longa e profícua correspondência com sua mãe, desabafando sua inadaptação ao dia a dia do internato.

Outra lembrança nos faz recuar ainda mais na vida de Eneida. Aos sete anos, ganha um concurso de contos infantis. Ela inscrevera secretamente seu conto sobre o lenhador e espantou a todos os familiares quando saiu o resultado. Essa saga precoce lhe valeu um prêmio de vinte mil réis e o seu nome estampado na revista Tico-Tico, promotora do certame.

Eneida

Chegamos a 1920. Nem bem completara dezessete anos, Eneida entra no jornalismo como secretária e colaboradora eventual da revista A Semana.

Mesmo vocacionada para a literatura, ingressa na faculdade de odontologia com o objetivo de alcançar sua independência financeira e romper com o pátrio poder. Em 1921 já frequentava na capital paraense reuniões da chamada “Academia ao ar livre”, no terraço do Grande Hotel, debatendo com Edgar Proença, Raul Bopp e Paulo de Oliveira, publicando crônicas e poemas.


Casa-se com Genáro Baima de Moraes, tendo pouco depois seus filhos Lea e Octavio Sérgio. Nunca seguiu a carreira de odontologia.


Na revista A Semana, adota o pseudônimo de “Miss Felicidade”, tendo no amigo Peregrino Junior seu maior incentivador.


Em 1925, em uma viagem a passeio ao Rio de Janeiro, conhece um casal de intelectuais e militantes de esquerda, Eugênia e Álvaro Moreyra, iniciando uma amizade que marcaria sua vida para sempre.


Volta para Belém, separa-se do marido, passando a assinar seus escritos apenas como Eneida. Escreve para o jornal Para todos (do Rio de Janeiro), dirigido pelo amigo recente Álvaro Moreyra, iniciando em paralelo uma colaboração na revista Belém Nova.


Ao fazer parte do grupo de colaboradores da Belém Nova, alia-se ao movimento contestatório de cor local e escreve Canto Novo do Brasil, uma crônica de louvação aos poetas que aderiram aos temas da estética modernista. E neste caldeamento doutrinário, Eneida faz eco ao manifesto Flamin-n’-assu lançado por Abeguar Bastos e publicado na Belém Nova. O flamin-n’-assu conclamava poetas e prosadores a formarem uma corrente de pensamento que contestava alguns itens do movimento Pau-Brasil, de Oswald de Andrade. [3]

Estas divergências, desprovidas de um norte mais claro, não alcançaram voo longo, pouco tempo depois Eneida escreve para a revista Antropofagia, dirigida pelo próprio Oswald, publicando dois poemas nos quais deixa eclodir as cores da temática paraense: Banho de Cheiro e Assahi.


A década de 1920 assistiu a uma multiplicidade de transformações sociais, políticas e culturais, impulsionando Eneida na direção de um caminho sem volta, selando seu destino de revolucionária em diversos campos da sociedade. Foi a década, como destacou Carlos Nelson Coutinho, na qual se acelerou o processo de ocidentalização da sociedade brasileira [4]. A fundação do Partido Comunista do Brasil; a Coluna Prestes; a Semana de Arte Moderna de 1922; a efervescência da cultura popular com a popularização do futebol (a experiência pioneira do Vasco da Gama em 1923, campeão com time de negros e mulatos); e o primeiro desfile de uma Escola de Samba, a Deixa Falar, em 1928, no bairro do Estácio no Rio de Janeiro.


Na segunda metade dos anos 20, nossa personagem ingressa no jornal O Estado do Pará, tribuna de oposição ao governo estadual. Além de escrever críticas literárias, poemas, Eneida publica crônicas com perfil claramente contestatório, trilhando o ofício de cronista militante que vai acompanhá-la em toda a sua vida. Publica EM 1929 seu primeiro livro, Terra Verde, uma seleta de poemas amazônicos já divulgados em periódicos diversos.


Em 1930, recebe uma homenagem que lhe cala fundo: um grupo de intelectuais paraenses e amazonenses, sob a liderança de Raimundo de Morais, confere-lhe o prêmio “Muiraquitan” por sua participação nos movimentos literários de seu Estado.

Decide fixar residência no Rio de Janeiro, ingressando logo a seguir (1932) no Partido Comunista Brasileiro. Nesta fase, dedica-se apenas à crônica e ao conto. Seu nome literário de militante política, possivelmente por sugestão de sua amiga Eugênia Moreyra, passa a ser Eneida. Reside algum tempo no mesmo prédio de Manuel Bandeira. Através de artigos em jornais e revistas, participava ativamente dos debates políticos da época.


Eneida tinha na casa de Álvaro e Eugênia Moreyra, em Copacabana, aconchego, alegria e fonte inesgotável para aprofundar seus conhecimentos sobre a arte popular brasileira.


Álvaro e Eugênia Moreyra em 1935

A jovem adentra autores como Marx, Lênin, Engels e Bukarin. Intuitivamente, antes mesmo da obra de Gramsci ser conhecida, Eneida enveredava com seu ativismo incansável nos novos “aparelhos privados de hegemonia”, principalmente aqueles vinculados à cultura popular, sempre iluminada pela convivência com Eugênia e Álvaro.


O casal Moreyra tinha em sua casa um reduto permanente de debates, saraus literários e musicais, bem como abrigo certo e seguro para perseguidos e clandestinos políticos. Não é difícil imaginar a alegria de Eneida ao conhecer Di Cavalcanti, Vinicius de Moraes, Valério Konder, Wilson Baptista, Paulo da Portela, Rubem Braga, dentre tantos outros.


Eneida não para. Tem alma de viajante, espírito guerreiro, uma apaixonada pelas cores e cheiros paraenses, samba e carnaval. Aproxima-se cada vez mais do campo socialista e do marxismo, deixando brotar seu futuro de “intelectual orgânica”, na acepção gramsciana do termo.


Em 1932, Eugênia Moreyra integra a primeira comissão julgadora de desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Por iniciativa do jornal O Mundo Sportivo, de Mário Filho, foram convidados, além de Eugênia, seu marido Álvaro, Orestes Barbosa, Raimundo Magalhães Júnior (pai da carnavalesca Rosa Magalhães), José Lira e Fernando Costa. Segundo relatos que o autor deste artigo ouviu de amigos de Eneida, nossa personagem ficou exultante com a escolha, comparecendo ao desfile e vibrando junto com a amiga Eugênia.


Não nos parece demasiado aprofundar o ambiente da residência do casal Moreyra, que a tantos encantou e que tantos ainda preservam na memória. Recorremos a dois mestres da crônica brasileira para ilustrar a afirmativa. Em 18 de junho de 1948, escrevia Rubem Braga, no Diário de Notícias, crônica intitulada “DONA EUGÊNIA”:


[...] mais tarde fiquei freguês da feijoada aos domingos na casa branca da Rua Xavier da Silveira [...] a mesa era grande, sempre cabia mais um no banco, e os donos da casa eram cordiais. O magro jornalista podia tomar sua cachacinha, comer o bastante para esquecer a miséria de alguma pensão do Catete, pegar um bom livro na estante e fazer o que entendesse: ler versos, ouvir música, conversar ou dormir.


Houve tempos alegres, e fases de sonho e entusiasmo; houve depois tempos negros, ruins, de hospital, de prisão. Em qualquer tempo aquela mulher que espantava o homem da rua com sua franja, seu charuto, suas joias pesadas, sua voz alta e às vezes até um mico – era a mesma. Sempre promovendo alguma coisa, sempre trabalhando duro, ajudando os outros, fazendo arte e política, discutindo, organizando, às vezes brigando, e conseguindo ser no meio de tudo isso, a mais dedicada das mães e das vós [...].


E era espantoso como agia, como se jogava em canseiras, aborrecimentos, dificuldades, para atender a qualquer necessitado [...] E se era difícil ajeitar em algum canto o pobre – então o próprio 99 da Xavier da Silveira se transformava em asilo ou enfermaria [...].


Essa paixão de ajudar os outros é que a levou com Álvaro, para o comunismo. Quem quiser saber de seu devotamento e de sua capacidade de trabalho que pergunte a qualquer camarada de partido; quem quiser saber de sua coragem e de sua dignidade, pergunte aos homens da polícia, que nestes últimos 13 anos de estupidez quase contínua puderam muitas vezes encher aquela casa de aflição, de tristeza, mas nunca de humilhação. [5]

Segundo diversos amigos como João Saldanha, Valério Konder, Otávio Sérgio, filho de Eneida, a casa de número 99 da Rua Xavier da Silveira, em Copacabana, foi o principal ponto de apoio e influência por muitos anos na vida de nossa personagem.

Em 4 de dezembro de 1954, Sérgio Porto publicou na revista Manchete, no espaço “Um episódio por semana”, crônica intitulada “AS AMARGAS, NÃO...”, título do principal livro de Álvaro Moreyra, grande sucesso de público e crítica. Escreveu Sérgio:


Os personagens iam mudando, o mundo também, só Alvinho [Álvaro Moreyra] era o mesmo. Dava igual atenção a todos [...]


[...] Depois Oscar Niemeyer, um jovem arquiteto reformou a casa e a conversa passou a ser na varanda [...]


[...] Quando Di Cavalcanti aparecia, a conversa se animava, tomava-se vinho. No Natal, havia uma ceia grande para quase uma centena de pessoas. Era permitido levar a namorada. Sandro [filho de Álvaro e Eugênia] criou um caso – levou duas. [6]



Sérgio Porto

O popular e o comunismo em Eneida tinham no seu humor importante ponto de apoio. Um humor onde a alegria era extensão de sua própria vida, não era inventado, mas vivido, gostado e praticado. O humor de Eneida pode ser situado na linha do historiador e linguista russo Bakhtin.. Um humor que se transmuta em riso como forma de bater no fígado do discurso oficial, impedindo que o sério se imponha com a prepotência de gala dos dominadores.

As prisões na vida de Eneida

Eneida sempre demonstrou arrojo e disciplina partidária em sua militância comunista, sem perder a alegria e o encantamento pelas manifestações da cultura popular brasileira. Envolveu-se diretamente na Revolução de 1932, residindo provisoriamente na capital paulista. Era uma entusiasta da causa proletária. Abre mão de sua origem de classe em nome de sua nova posição de classe.

Recorremos mais uma vez à palavra precisa de Eunice Ferreira dos Santos, situando o ativismo de Eneida, conduzido com harmonia entre o ofício de cronista e seu o destino de intelectual orgânica [7], numa conjuntura em que o PCB incorporava a proletarização e o obreirismo como orientação a seus quadros, em contraposição ao modo de vida da intelectualidade pequeno-burguesa.

Representam o locus da rememoração do projeto político da cronista militante:

“A primeira vez que li O Manifesto Comunista, de Marx e Engels, fui tomada de um entusiasmo tão grande que cada uma de suas palavras repercutia profundamente dentro de mim”. [...] Para se afinar a este discurso e provar que estava pronta para ser militante, Eneida começa a apagar “os resquícios pequeno-burgueses”, que herdara da mãe: “As belas jóias que tive, perdi em casa de penhores na etapa em que encontrei o meu caminho; justamente no momento do qual me orgulho: o da escolha de um futuro”. [8]

O entorno da Revolução Constitucionalista aquece e impulsiona a jovem militante. O PCB avaliou que São Paulo seria um terreno fértil para a luta operária. Eneida atuava na agitação e propaganda, além de redigir e distribuir panfletos e tabloides.

Conforme registro policial do período, coletado e publicado por Eunice Ferreira dos Santos:


Eneida da Costa de Moraes (sic), conhecida agitadora comunista, possuía em sua residência um custoso mimeógrafo adquirido pelo “Socorro Vermelho Internacional” e a ela entregue para confecção de boletins de propaganda subversivo-comunista. Ali foram encontrados centenas de boletins, já empacotados, prontos para expedição, e muita correspondência do Partido Comunista. [9]

Eneida foi presa, submetida a interrogatórios intermitentes. Fica detida por quatro meses. Quando solta, permaneceu em São Paulo, escondida no interior do estado por alguns meses, retornando ao Rio de Janeiro por orientação da direção partidária. Nesta fase, Eneida passa por grandes dificuldades financeiras, sendo ajudada por amigas como Eugênia Moreyra. Trabalha como operária mas não deixa de lado seu trabalho intelectual, continua a realizar traduções para complementar seu parco orçamento pessoal.


A atividade política é incessante; participa da Aliança Nacional Libertadora e da União Feminina do Brasil. Desmantelada a tentativa de tomada do poder em 1935, fecha-se o cerco em torno das principais lideranças do movimento. Eneida é detida em janeiro de 1936.


As revoluções de 1932 e 1935 lhe custaram cárcere privado, torturas, clandestinidade e exílio. Colecionou prisões. Não desistia. Nunca desistiu. Até 1946, é presa onze vezes.

A prisão em 1936 lhe custou um ano e meio de privação de liberdade, humilhações e um por à prova tudo que amava e sonhava. Detida no “Pavilhão dos Primários”, compartilha o mesmo espaço com outras vinte e quatro mulheres. Lá, em companhia de outras intelectuais, liderou movimentos contra maus tratos e escreveu um livro de contos, Quarteirão, que permaneceu inédito. Um dos contos, “O guarda-chuva”, veio a ser incluído em uma antologia organizada por Graciliano Ramos. A permanência de Eneida na prisão foi profícua em sua literatura. Um de seus escritos mais reconhecidos e elogiados, “Companheiras” [10], foi escrito na Casa de Detenção.



COMPANHEIRAS


Durante o inverno a sala era tão úmida, que engelava mãos e obrigava os pés um constante sapateado; no verão a sala era quente, tão quente que parecia querer matar-nos sufocados a qualquer momento.


Os dias - no inverno como no verão - se arrastavam pesados, longos, sem monotonia, pois nossa constante preocupação era inventar formas para que eles não fossem parecidos. Enchíamos com coragem todas as horas: ginástica, estudos, conversas, cânticos, passeios. Tão pequeno o espaço que possuíamos para caminhar, e o ruído dos tamancos cortava-o, ferindo o lajedo; a saudade impressa nos olhos; as constantes evocações. Quando se falava em quitutes variados, quando alguém dizia como se preparava esse ou aquele prato, podia-se olhar os olhos: estavam todos famintos. Quando se contava passeios e se falava de mar, praia, montanhas ou planícies, podia-se ver nos olhos famintos uma ância de voltar à vida da cidade, da terra, do mundo.


Éramos vinte e cinco mulheres presas políticas numa sala da Casa de Detenção, Pavilhão dos Primários, 1935, 1936, 1937, 1938. Quem já esqueceu o sombrio fascínio do Estado Novo com seus crimes, perseguições, assassinatos, desaparecimentos, torturas?


De um lado e de outro da sala, enfileiradas, agarradas umas as outras, vinte e cinco camas. Quase presas ao teto alto, quatro janelas fechadas por umas tristes e negras grades. Encostadas à parede, uma grande mesa com dois bancos. Ao fundo da sala, os aparelhos sanitários. Por maior que fosse a nossa luta para mantê-los limpos e desinfetados, nunca conseguíamos fugir do cheiro forte que exalavam.


Vinte e cinco mulheres, vinte e cinco camas, vinte e cinco milhões de problemas. Havia louras, negras, mulatas, de cabelos escuros e claros; de roupas caras e trajes modestos. Datilógrafas, médicas, domésticas, advogadas, mulheres intelectuais e operárias. Algumas ficavam sempre, outras passavam dias ou meses, partiam, algumas vezes voltavam, outras nunca mais vinham.


Haviam as tristes, silenciosas, metidas dentro de si próprias; as vibráteis, sempre prontas ao riso, aproveitando todos os momentos para não se deixarem abater. Os filhos de Rosa eram nossos filhos. Sabíamos as graças e as manhas com que embalavam aquela mulher forte, arrogante, atrevida sempre, mas tão doce, tão enlevada pelos "meninos". Quando Rosa falava nos "meninos" ficávamos todas em silêncio. Onde andariam eles? A polícia arrancara-os daquela mãe, negava-se a informar onde se encontravam, não admitia que Rosa soubesse notícias da família: o marido foragido, a irmã distante. E os "meninos"? No silêncio das noites, Rosa fazia com que assistíssemos aos nascimentos, aos primeiros passos, à primeira gracinha, ao primeiro sorriso, e depois o crescer rápido, a escola, os livros, idade avançada. Onde estariam eles?


Problemas de uma, problemas de todas. O noivo de Beatriz era o nosso noivo. Queríamos saber suas notícias, coisas que nem a própria noiva conhecia. Problemas comuns, destinos comuns. Os filhos de Antônia estavam em Natal, mas onde andaria o marido de Nininha, preso do Rio Grande do Norte?


- Aquele eu conheço muito. É um cabra da peste. Ninguém dobra ele, não.

Nininha Lourada, de voz cantante, opunha às cenas de doçura suas palavras de energia. Contava a vida do marido como a de um herói.


Pobres mulheres jogadas numa prisão infecta, sem o menor conforto. Maria pensava no seu chuveiro elétrico, Valentina ensinava literatura inglesa (como estudava e lia Valentina) e queríamos a viva força que Nise desse lições de Psicologia.


Um dia - jamais esquecerei esse dia - fazia muito calor e havia sol. Pareciam maiores as paredes da sala onde escrevêramos desabafos. A vida lá fora devia estar bela; era verão e com certeza ruas e avenidas ensolaradas viam passar mulheres de vestidos claros e leves. Na sala, aquela tarde, havia tanto calor que descansávamos nas camas, abanando-nos com pedaços de papel. Como não tínhamos espaço para andar todas ao mesmo tempo, quando umas o faziam, outras eram obrigadas a ficar sentadas ou deitadas nas camas. Jogávamos paciência, algumas, e o calor era tanto que nem tentávamos falar. Qualquer gesto, qualquer palavra ou movimento iria aumentar o suor que escorria de nossos corpos cansados. Não podíamos perder a menor de nossas energias: deveríamos sobreviver.


E foi nessa tarde que tenho gravada na memória que ela entrou na Sala das Mulheres. Nunca esquecerei seu ar de espanto nem aqueles sapatos que haviam sido brancos. Estavam manchados de terra ou de sangue? Nunca esquecerei o vestido sujo, as mãos trêmulas, os cabelos brancos revoltos.


Ouvimos os passos do guarda subindo a escada; as chaves na porta das grades; depois ela entrou. Estatura mediana, vestido estampado, olhos curiosos. Entrou em silêncio. Em silêncio o guarda a deixou ali.


Olhou em torno. Procurou examinar uma a uma as mulheres, envolvendo-as todas num olhar imenso. Sentou-se na ponta de cama próxima, curvou-se, meteu os dedos por entre os cabelos.


- Quem será?


- Que mulheres serão estas? - estaria se perguntando.


Aproximamo-nos. Tínhamos sempre o cuidado de fazer o reconhecimento e o nosso próprio interrogatório: de onde vem, que fez, por que foi presa, seu ome, etc. Muitos etc.


Perguntamos quem era ela. Nenhuma resposta. Ninguém a conhecia; não nos conhecia. Insistimos. Levantou os olhos, encarou-nos de frente, parecia um animal pronto a se defender. Nossas perguntas foram feitas em várias línguas. E ela continuava firme, sem a menor perturbação fisionômica.


- Não sabemos quem é você. Mas nós somos antifascistas, nós somos presas políticas. Cada uma de nós tem sua estória; esta veio presa do Norte, aquela está aqui como refém porque o marido sumiu. Somos todas brasileiras.

Uma de nós adiantou-se e lhe disse:


- Eu sou comunista.


Foi a esse grito que aquela mulher despertou. Agarrou-se à companheira, beijou-lhe o rosto e pôs-se a exclamar com grandes lágrimas descendo pelo rosto alquebrado:


- Camarada, minha camarada!


O olhar com que agora envolvia as vinte e cinco mulheres era diferente; queria entender as palavras nas paredes; perguntava, sorria, abraçava todas, chorava e ria. E contou. Contou com voz firme o quanto sofrera. A Polícia Especial a maltratara monstruosamente. Mostrou-nos os seios onde trazia impressas marcas de dedo. Colocavam-na no alto da escada, amarrada e nua para forçá-la a declarar ou delatar, enquanto dois homens enormes lhe puxavam os seios.


Falou-nos do sofrimento, da fome e da sede que lhe haviam imposto. Falou-nos de seu companheiro e das barbaridades que ambas padeceram. Falou sempre com voz clara, precisa, serena, em tudo que passara nas prisões desta cidade. Seu corpo guardava ainda as vergastadas de chicote policial. Jogavam-na de prisão em prisão. Ora era metida em celas de prostitutas, ora no meio das ladras ou ébrias. Durante mais de dois meses sofreu humilhações físicas e morais.


- Muito ruins, muito ruins, comentava.


Uma de nós falou:


- Ela precisa comer, tomar banho, mudar o vestido.


Houve um corre-corre geral. Todas queriam dar-lhe roupas, todas queriam dar-lhe um pedaço de pão, de doce, uma fruta. Comia sorrindo. Sua fome tinha dois meses, seu sofrimento mais algum tempo.


Minutos depois voltou o guarda. Explicou que fora engano. A prisão para ela seria outra. E sorrindo:


- Muito pior.


Quando partiu deixava vinte e cinco amigas. Não lhe dissemos adeus, não tivemos um momento de fraqueza. Mas quando as grades se fecharam atrás dela, cinqüenta olhos choraram.


A tarde tão quente de verão foi mais longa e dolorosa naquele dia. Ninguém falava. Voltamos ao jogo de paciência, ao silêncio, à angústia de saber que a vida lá fora devia andar linda.


Três meses depois ela voltou. Veio viver conosco. Todas as noites, à meia-noite, levantava-se e andava, andava de um lado para o outro, sem uma palavra.


- De meia-noite às duas da manhã ela devia apanhar, ficou-lhe uma psicose.


Essa mulher se chamava Elisa Soborovsk, a Sabo Berger, mulher de Henry Berger. O governo Getúlio Vargas entregou-a mais tarde à Gestapo. Hitler matou-a.


Sabo, para mim, foi uma revelação; jamais conheci mulher tão culta, tão humana, tão valente. Uma mulher tão bela. Nunca a esquecerei.


Na noite em que ela partiu com Olga Benário para o navio que as levaria a Hitler, era inverno e tiritávamos de frio. sofríamos ainda mais, porque tínhamos aprendido a amá-la.


Recordando-a agora, cumpro um dever. Jamais esquecerei também as vinte e cinco mulheres da sala ora fria, ora quente, do Pavilhão dos Primários.