Quem não faz leva, as máximas e expressões do futebol brasileiro.

Atualizado: Fev 21


Uma introdução: futebol e magia


por Raul Milliet Filho


Tai, eu fico um pouco cansado do equívoco daqueles que visualizam a luta política como vinculada apenas a fatores do campo econômico e social. Desde Marx os “símbolos” já eram vistos como elementos que desempenhavam uma função significativa na história da luta de classes. Há na obra do autor de O Capital elementos que comprovam que ele era atento à riqueza contraditória no campo do imaginário.


Como vamos tratar do futebol, um esporte regrado na Inglaterra é preciso estar atento. Benedict Anderson conceituou a nação como “comunidade política imaginada”. E quais seriam os elementos constitutivos e sedimentados da nação brasileira que não o futebol e a música popular brasileira?


Um esporte de elite, inglês, desembarcado no eixo Rio-São Paulo em malas europeias, que em um curto espaço de tempo foi reinventado e incorporado pelas classes populares brasileiras, consolidando-se ao lado do samba como um dos pilares centrais de nosso incipiente Estado-Nação.


O futebol foi responsável pela “Queda da Bastilha” dos clubes aristocráticos, tecendo uma relação mítica na qual a torcida incorpora o próprio clube, agora time.


O jogador de futebol que na década de 1920 começa a desenvolver seu talento é o mais típico representante do que Baudelaire, Benjamin e João do Rio jamais imaginariam de um flâneur do lado de baixo do Equador. Tropical polivalente. Criador e conservador. Rebelde e dócil. Questionador da ordem constituída e parceiro de primeira hora de qualquer um que lhe possa dar um ganho.


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Um jogador, que incorpora a cultura negra, sua tradição corporal, a cultura europeia, uma fusão do sportman com alma do flâneur, de um Dândi em conflito. Desta fusão do faz tudo do trabalho informal brasileiro, da sincopa, da feijoada cultural com a disciplina do sportman, nasce um estilo diferenciado de jogar que, se por um lado não pode ser idealizado nem naturalizado, por outro não pode ser esquecido como uma marca cultural brasileira própria, com clara hegemonia das classes populares, em seu processo de constituição. A escola brasileira de futebol ganha impulso, demarcada pela vitória no Sul-Americano de 1919, no sentido oposto do que ocorria na Inglaterra, pois aqui as linhas de produção não impõem a perda da habilidade do artesão, e, na verdade, empurram os moradores do Rio de Janeiro a possuir uma plêiade de aptidões. O saber de tudo um pouco, “valorizando” o “atraso social” e pela necessidade de sobrevivência, o equilibrista das atividades. O viver daquilo que se consegue a cada dia, criando o culto ao improviso. E elogiado depois por Noel Rosa em “Orvalho vem caindo” de 1933:

Se um dia passo bem

dois e três passo mal

isto é muito natural.”



E só o gênio de Noel Rosa, pai fundador da Música Popular Brasileira poderia traduzir tudo isto numa canção em parceria com Vadico. “Tarzan, o filho do alfaiate”, aqui interpretada com maestria por Zeca Pagodinho com acompanhamento de bambas.




Isto é contra-hegemonia cultural escrita e escarrada.


Um dos caminhos possíveis que permitiram que espaços anteriormente fechados fossem abertos para as classes populares frequentarem.


E não é à toa que na década de 1920 os caminhos da popularização do futebol e do samba tenham sido definitivamente abertos. O Vasco campeão de 1923 com um time de negros e mulatos e a criação da primeira escola de samba em 1928, a Deixa Falar.

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Quem não faz leva, as máximas e expressões do futebol brasileiro.


Não tem sido comum, na tradição da historiografia brasileira e mundial, adotar o futebol como tema. Muito menos o futebol como linguagem, ou tema relevante em estudos da linguagem, particularmente no Brasil.


Nelson Rodrigues, Neném Prancha, João Saldanha e Gentil Cardoso foram quatro dos maiores criadores de máximas e expressões. Esses narradores benjaminianos [1] desenvolveram não só o futebol como linguagem, mas a linguagem como futebol. Nelson e João, por exemplo, jogavam com a bola que era a palavra no espaço das crônicas diárias que escreviam, produzindo uma ficção da linguagem física associada à linguagem verbal. O corpo e a voz andando paralelamente, com metáforas rápidas exigidas pela velocidade do jogo.


Guimarães Rosa e Machado de Assis, ao longo de suas obras, utilizaram provérbios que buscavam no popular e no local uma possibilidade de condensação, sínteses do universal. As máximas e expressões do futebol brasileiro representam a crônica da crônica possível, recuperando uma possibilidade de humanização e de captura da singularidade das emoções.


Outra forma de lidar com essa linguagem foi explorada pelo jornalista e escritor Mário Filho, quando, em 1957, abordou o tema no artigo “Da necessidade do gozo” [2] no futebol, referindo-se ao chiste coletivo criado em pleno Maracanã na Copa de 1950, com o estádio em uníssono cantando “Touradas de Madrid” (Braguinha e Alberto Ribeiro), como forma de externar a alegria pela goleada da seleção brasileira sobre a Espanha por 6 a 1.


Mané Garrincha foi criador de um chiste mímico, o olé, nascido no Estádio Azteca, no México, durante o jogo River Plate x Botafogo, em 1958.


O nacional, o imaginário e o popular estão contidos nessa caixa mágica de onde brotaram as máximas e expressões de narradores do futebol brasileiro, como recortes da nação.

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Bronislaw Baczko [3] chamava a atenção para a importância da imaginação social como fator regulador e estabilizador, de forma que os modos de sociabilidade existentes não sejam vistos como definitivos e únicos. As máximas e expressões são traduções vivas desse imaginário, alegorias e adereços desse grande samba-enredo que é o futebol.



“Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência” (Gentil Cardoso)


Gentil Cardoso.

Expressões, gírias do mundo do futebol. São as frases soltas nos estádios, o desabafo do torcedor. O comentário do técnico, a firula do locutor e do próprio craque recriando o futebol.


Algumas dessas criações ultrapassam o limite do jogo, fazendo um vai e vem de efeito, da vida para o campo e do campo para a vida: “Treino é treino, jogo é jogo” (Didi); “Fui jogado pra escanteio” (autor desconhecido); “Vou tirar meu time de campo” (autor desconhecido).


A história das máximas, das expressões, das gírias é a história do próprio futebol brasileiro. No início do século XX, no tempo de Charles Miller, introdutor do futebol no Brasil, filho de ingleses, goleiro era goal-keeper, impedimento, off-side, centromédio, centerhalf. Palavras inglesas, de um esporte inglês praticado por um número restrito de pessoas – as elites brasileiras e europeias que aqui viviam.

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Na década de 1920, quando o futebol começa a se popularizar, a imprensa, que até então dava a esse esporte um tratamento secundário, desprezando-o até, abre definitivamente suas páginas para as partidas, os jogadores e os principais campeonatos.


Por volta de 1930, surgiram os primeiros jornais especializados. A crônica esportiva ganhou maior espaço. Mário Filho, à frente do Jornal dos Sports, foi responsável por uma série de inovações. Nasceram expressões como Fla-Flu, e José Lins do Rego, Álvaro Moreyra e Otavio de Faria, exceções dentro de uma intelectualidade avessa ao tema, passam a assinar crônicas sobre futebol.


No rádio, Gagliano Neto e Ary Barroso imprimem um estilo vibrante e imaginativo às transmissões dos jogos. Novas palavras, novas expressões.


Com a inauguração do Maracanã e a realização da Copa do Mundo no Brasil, em 1950, o jornalismo especializado ganha impulso. Na literatura e na dramaturgia o panorama é outro, e o futebol como tema esteve pouco presente. Mas nem por isso o encanto de suas palavras, suas gírias e seus ditados deixou de aparecer incessantemente na literatura popular e na poesia alternativa de penas e vozes privilegiadas.


E autores como Neném Prancha, Nelson Rodrigues, João Saldanha e Gentil Cardoso recolheram e reinventaram, do saber popular, todo esse mundo de novas palavras que, desvendando o universo dos campos, passou a fazer parte do cotidiano do futebol brasileiro, hábil e imprevisível com a bola nos pés, malandro e irreverente com a palavra escrita e falada.

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A história de Neném Prancha virou livro, escrito por Jocelyn Brasil (Pedro Zamora).

Neném Prancha, roupeiro do Botafogo, técnico de futebol de praia no Rio de Janeiro, treinador de Heleno de Freitas, Sérgio Porto, Tim, João Saldanha, Raphael de Almeida Magalhães e outros pupilos ilustres, foi um grande autor de frases e expressões.


Neném falava com simplicidade do craque: “Jogador é o Didi, ele joga como quem chupa laranja. E do cabeça de bagre, do jogador sem classe: “Não maltrates a menina, rapaz, que ela nunca fez mal a você. E definia o próprio jogo: “Futebol não tem mistério: Quem tem a bola ataca, quem não tem defende”, completando: “O futebol é simples, o difícil é querer jogar bonito.


Do alto de sua sabedoria, Neném Prancha, técnico do time do Posto 4, que fez história na praia de Copacabana e em todo o Rio de Janeiro, sentenciava: “Jogador é que nem sorveteria, tem que ter diversas qualidades”. Ou aconselhava um de seus discípulos, o popular Anacleto (meio-campo do Lá Vai Bola): “Jogador tem que ir na bola como num prato de comida”. E, apreciando o estilo elegante de Heleno de Freitas de cabecear, decretou: “A cabeça… a cabeça é o terceiro pé”.

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Certo dia, quando seu time perdia de goleada para o maior rival, irritado com um de seus zagueiros, meio metido a craque, Prancha gritou do calçadão da Avenida Atlântica para o campo de areia: “Joga a bola pra cima, menino! Enquanto ela estiver no céu não tem perigo de gol!!!”.


Nelson Rodrigues, tricolor de coração.

O estilo de Nelson Rodrigues, jornalista, teatrólogo que revolucionou a dramaturgia brasileira, está mais no plano da ficção, dos personagens fantásticos, das recorrências quase bíblicas, seculares. Para Nelson, só os cretinos fundamentais não enxergavam a beleza do futebol brasileiro e a superioridade do nosso jogador sobre o europeu com toda a sua “saúde de vaca premiada”.


Radical em sua paixão pelo futebol nacional, na mesma toada de Gilberto Freyre em seu prefácio ao Negro no futebol brasileiro, de Mário Filho, Nelson respondia de maneira profética a perguntas sobre o que a seleção brasileira deveria fazer para ganhar lá fora: “Deve é jogar como brasileiro joga. Com seu virtuosismo, beleza nunca vista antes na face da Terra. Quarenta minutos antes do nada... Adão, Adão era apanhador de bola do Brasil”. E repetia, enfático: “E quem se deslumbrar com o futebol europeu que vá para lá, se não tiver dinheiro para a passagem que vá a nado e pronto!”.

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O mesmo Nelson, criador de personagens como o “Sobrenatural de Almeida”, a “Cabra vadia” e o torcedor fanático do Fluminense “Ceguinho”, que via tudo e comentava sobre tudo. Do pênalti duvidoso ao erro do bandeirinha, o “Ceguinho enxergava o jogo mais do que ninguém. Sua definição sobre Didi é clássica: “Em uma simples ginga de Didi, há toda uma nostalgia de gafieiras eternas”. Sobre Gerson, vendo o Canhotinha de Ouro em campo estudando calmamente o momento preciso de um lançamento longo, comparou: “A velocidade burra dos europeus e a santa lentidão dos brasileiros”.


João Saldanha orienta Pelé em treino da seleção.

João Saldanha, jornalista, técnico do Botafogo, campeão em 1957, membro do comitê central do Partido Comunista Brasileiro, responsável pela montagem do time tricampeão em 1970: “O realmente técnico”, “O comentarista que o Brasil inteiro consagrou”, “O João sem medo”, como dizia Nelson Rodrigues. Saldanha, da linguagem coloquial, é responsável por várias expressões e gírias como: “cabeça de bagre”; “linha burra de quatro zagueiros”; “o mapa da mina é ali, pela ponta, em cima do lateral-esquerdo deles”; “macaquinho namorado da girafa. Uma outra: “Se bicho ganhasse jogo, o time do City Bank não perdia uma.

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Existem algumas máximas e expressões que, apesar de atribuídas a Neném Prancha, são mesmo dele. Como afirmou Sérgio Cabral (pai): “O João Saldanha inventava frases e dizia serem do Neném Prancha. Por exemplo: ‘Se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária seria campeão’; ‘Se macumba ganhasse jogo, o Campeonato Baiano terminaria empatado’”. [4]


Saldanha, atuando concomitantemente em rádio, jornal e televisão, desagradava a conservadores e puristas, incomodando-os por motivos variados, dois dos quais podem ser confirmados pelo primeiro leitor, pelo primeiro ouvinte: sua posição aberta de comunista e sua adesão apaixonada ao lapidar da linguagem e à cultura popular, nunca vista como construção antagônica à cultura erudita. Em seus comentários pelo rádio, introduziu inovações que deixaram ruborizada a cútis do recato pleno de hipocrisia, com termos como: “porrada”, “cacete” e outros. Conscientemente, fez chegar inovações da Semana de Arte Moderna à imprensa esportiva, retirando o traje a rigor e as ceroulas que revestiam os textos. Em suas colunas, podia-se ler: “Os coleguinhas enlatados e os empresários do futebol esculhambando o troço...” ou “O ingresso foi caro, variava de quinhentos mangos e ia até dois mil e fumaça...”.


O popular em João Saldanha tinha no humor seu principal ponto de apoio. Um humor no qual sua alegria e seu sorriso maroto, extensão de sua própria vida, não eram inventados, mas vividos. O humor de João pode ser situado na linha do historiador e linguista russo Bakhtin. Um humor que se transmuta em riso como forma de bater no fígado do discurso oficial, impedindo que o sério se imponha com a prepotência de gala.


Gentil Cardoso, ex-marinheiro, chefe de máquinas da Marinha Mercante, um dos primeiros treinadores negros do Brasil. Gentil estrategista; Gentil criador da zebra; Gentil campeão pelo Vasco; um dos responsáveis pela introdução do WM em nosso futebol, ainda nos anos 1932, 1933. Gentil Cardoso, autor de frases de grande originalidade: “Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência”; “Quem não faz leva.


Achava fundamental o jogo rasteiro, principalmente dentro do estilo da escola brasileira de futebol. Quando algum de seus jogadores levantava muito a bola, dizia: “A bola é feita de

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couro, o couro é tirado da vaca e a vaca come no chão. Portanto, a bola deve rolar rasteira. Foi de sua lavra o termo cartola, cunhado em torno de 1933 para designar os dirigentes esportivos que discutiam, na época, a adoção do profissionalismo.


A zebra foi um achado de Gentil. Técnico da Portuguesa, time pequeno do Rio de Janeiro, na véspera de enfrentar o Vasco da Gama, seu antigo clube, afirmou aos quatro cantos: “Olha, amanhã vai dar zebra. No sentido de que, em vez de um dos 25 bichos do jogo, daria um de fora, a zebra. A Portuguesa venceu a partida, imortalizando a expressão “deu zebra”.


Há outras frases, outros autores, como Armando Nogueira: “Para entender a alma de um brasileiro”, diz Armando, “é preciso surpreendê-lo no momento de um gol; para um craque, um palmo de campo é latifúndio.


Sobre a bola, também chamada de menina, nega, Maricota e Leonor, dizia Didi com a sabedoria dos grandes mestres: “A bola é como mulher, carinho o tempo todo, senão acaba perdendo”.



Didi

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De todos os jogadores, personagens, todos os tipos, um deles, em uma posição amaldiçoada, foi motivo de especial interesse para os contadores de histórias do nosso futebol: o goleiro.


Três frases o definem com precisão: “Ele é tão maldito que onde joga não nasce grama”; “Um time de futebol é formado por dez pessoas e um goleiro”; “O goleiro deve dormir com a bola, se for casado tem que dormir com as duas”.


Assim é o mundo do futebol. Versões, histórias, autorias imprecisas, como um gol em lance confuso. Quem tocou por último? Quem criou tal máxima? Como aquela famosa do pênalti, por exemplo: “Pênalti é tão importante, que devia ser batido pelo presidente do clube”. De quem foi? De Neném Prancha? Sérgio Cabral diz que não: “Eu quero dizer que esta frase, esta máxima, ‘pênalti é tão importante...’, é do Cavaca, humorista, homem de bom gosto. Dom José Cavaca”.[5]


João Saldanha tinha outra versão para a mesma história: [6] o Botafogo perdeu um jogo porque um jogador chamado Valseque, ao bater um pênalti, pegou por baixo e mandou a bola lá do outro lado da rua, por cima das arquibancadas de General Severiano. No dia seguinte, chateado, o presidente, um senhor baixinho, de terno branco, sapato de verniz, parou o treino e disse: “Olhem só!”. Bateu o pênalti no canto, afirmando: “Pênalti se bate assim”. Neném Prancha, assistindo a tudo, emendou de primeira: “Pênalti é tão importante, que devia ser batido pelo presidente do clube”.


Frases simples. Iradas, poéticas, religiosas, muitas vezes impublicáveis. Coisas desse jogo que é arte e paixão popular. Esporte sem pátria e sem fronteiras que levou o escritor Albert Camus, antigo goleiro de um modesto time argelino, a afirmar um dia:

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História social, máximas e expressões


Sobre a imaginação social, máximas, expressões e história, encontramos pontos de convergência entre dois autores de campos distintos do conhecimento, apaixonados pelo futebol. Eric Hobsbawm e Nelson Rodrigues: “O historiador das ideias pode (por sua conta e risco) não dar a mínima para a economia, e o historiador econômico não dar a mínima para Shakespeare, mas o historiador social que negligencia um dos dois não irá muito longe”.[8]


No imaginário estão presentes os preconceitos, as heranças culturais, os sonhos e todos os elementos através dos quais os homens e as sociedades encontram seus pontos de reconhecimento. A história tem na linguagem uma fonte de pesquisa para a investigação da ação do homem na definição de seus destinos, mesmo com as limitações dos balizamentos estruturais.


Nelson Rodrigues realçou reiteradamente a importância desses pontos para o desvendar dos mistérios do futebol:

Já se disse que toda história é história contemporânea disfarçada, como também que a opção pela neutralidade no ofício do cientista social deságua inevitavelmente em um estuário de floreios analítico-parnasianos. “Isso pode ser percebido através das previsões feitas pelos chamados ‘desapaixonados’; elas estão plenas de inutilidades, de minúcias sutis, de elegâncias conjeturais. Só a existência de quem ‘prevê’, de um programa a realizar faz com que ele se atenha ao essencial...” [10]

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E é o essencial, localizado na possibilidade da interseção do universal e do local, da objetividade e da subjetividade, que buscamos em narrativas como as máximas e expressões do futebol. E, voltando mais uma vez a Hobsbawm, podemos abrir aspas para um diálogo inaudito com Nelson Rodrigues:



A investigação do tempo presente – a intervenção do historiador na contemporaneidade – tem na paixão, na tomada de posição, na opção pela não neutralidade e na dialética localismo e cosmopolitismo aspectos de relevo.


Nicolau Sevcenko, na abertura do capítulo VII do volume III da História da vida privada no Brasil, adota como abertura citação proverbial: “Se você pretende compreender a sua própria época, leia as obras de ficção produzidas nela. As pessoas quando estão vestidas em fantasias, falam sem travas na língua”.[12]


E o que é um esporte, arte e paixão popular como o futebol, senão uma atividade humana vestida em fantasia, jogos e brinquedos regrados que neste caso não perdem o seu componente lúdico e que podem revelar cenários e personagens da época contemporânea.


As máximas e expressões, microcrônicas, assertivas sem travas na língua, são formas de reafirmar uma outra famosa do mundo do futebol: “O jogador vê, o craque antevê” (Armando Nogueira). A história só ultrapassa os limites da empiria quando vê além, antevê, quando vislumbra entre as frestas o palmo de campo do latifúndio.


A relação crônica-história, devidamente analisada por autores como Antonio Candido e Margarida de Souza Neves, aponta caminhos, visualiza o fio tênue dessa fronteira transpassada, de gêneros e abordagens. No centro, o olhar de Machado de Assis: “A história é uma castelã muito cheia de si e não me meto com ela. Mas a minha comadre crônica, isso é que é uma velha patusca, tanto fala como escreve, fareja todas as coisas miúdas e grandes e põe tudo em pratos limpos”. [13]

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E será na fonte do autoproclamado historiador das coisas miúdas ou do historiador da quinzena que buscaremos pelas trilhas de Margarida de Souza Neves esta extraordinária síntese da função e do poder pedagógico da crônica: “Não é novo nada disso, nem eu estou aqui para dizer coisas novas, mas velhas, coisas que pareçam ao leitor descuidado que é ele mesmo que a está inventando”. [14]


O que existirá no futebol de singularidade para despertar sentimentos tão íntimos e próximos, encantando qualquer espectador, peladeiro ou craque, torcedores de instituições mito como os clubes? Nelson Rodrigues nos dizia: “A verdadeira, autêntica paixão clubística dá a sensação de que sempre existiu e de que sempre existirá. Eis a verdade: – ela escapa do tempo. O sujeito se sente como se já fosse torcedor em vidas passadas”. [15]


As máximas condensam esse sentimento de eternização do passado de que nos fala Nelson.



Os pés e a zebra são os grandes segredos do futebol

O segredo das máximas da linguagem do futebol pode ser pinçado nas origens desse esporte, à luz do que Gramsci, Bakhtin e Ginzburg desenvolveram em suas obras sobre cultura popular, hegemonia e circularidade cultural.


O futebol é claro exemplo da dinâmica do erudito e do popular, da maneira pela qual as classes trabalhadoras e dominantes estabelecem trocas de experiências e incorporações balizadas pelos laços de hegemonia e contra-hegemonia.


A cultura, na acepção gramsciana, tal qual a hegemonia, é um processo complexo e dinâmico como a própria vida em movimento, com determinações contraditórias, aproximando-se da noção de visão de mundo, com deslocamentos constantes das ideias, das crenças, dos valores e dos sonhos, e, exatamente por estar em movimento constante, incorpora como elemento constitutivo a contra-hegemonia, como polo de resistência no interior igualmente contraditório da cultura dominante, podendo ou não, de acordo com os atores sociais em presença, assumir contornos sistemáticos na própria política no sentido amplo ou restrito (conceitos lapidados por Gramsci).

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O futebol regrado em escolas inglesas na segunda metade do século XIX tem origem nos jogos populares, retraduzidos até assumir um outro significado. Sendo praticado com os pés, aumenta seu grau de imprecisão, ampliando a necessidade de maestria e os solos individuais, abrindo caminhos para surpresas e acasos ao longo de uma partida. O maior sentido de conjunto e a contrapartida do uso impreciso dos pés, com movimentos corporais em ritmos descompassados, tornam o fator surpresa o ponto central desse esporte. Além do fato de que jogadores baixos e franzinos podem ser craques (hoje em oito posições), ao contrário de outros esportes coletivos como basquete, vôlei e beisebol, o elenco de surpresas do futebol e sua aproximação com o talento, a magia e a técnica não param por aí, identificando a torcida com a intimidade proporcionada por um jogo cujo segredo encontra-se no bolso de qualquer espectador medianamente informado.


As regras do futebol favorecem o talento, num conjunto de fatores interligados. A simplicidade da sua prática, do campo, do material esportivo. E um aspecto que é um autêntico chiste sem palavras: que esporte coletivo permite uma equipe claramente inferior fazer 1 x 0, trancar-se na defesa e ganhar o jogo? Nenhum. Nenhum outro. "Os pés e a zebra são os grandes segredos do futebol" (máxima de Raul Milliet Filho), e a International Board (entidade restrita a quatro ou cinco membros, criada em 1883 para uniformizar as regras do futebol entre Inglaterra, Escócia, Irlanda e Gales, que até hoje decide, junto com a Fifa, qualquer mudança nas regras do futebol) é a responsável por esses regramentos aparentemente disciplinadores, segredados nos ouvidos de cada um dos seus velhinhos integrantes que, com a sabedoria dos grandes mestres, ciosos da quase perfeição da criação que tem tanto de sua, só aceitam mudar suas regras de tempos em tempos. Esse é outro dos grandes segredos responsáveis pela popularidade do futebol: regras definidas, só desconhecidas por quem não é culturalmente aquinhoado para apreciar esta que, segundo Hobsbawm, é a “religião leiga dos trabalhadores”.

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Bate-pronto

Bate-pronto “é o chute forte dado quase que imediatamente após a bola quicar (pegá-la de bate-pronto). Sai forte, e é de difícil defesa para o goleiro”. [16] Bate-pronto, de prima – assim são as máximas.


Neste pequeno passeio, tentando como um flâneur caminhar com sabedoria pelo universo da linguagem do futebol e seus autores, destacamos alguns momentos/cenários do objeto do trabalho ora apresentado. Sempre de primeira para não perder o ritmo.

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Nessa linha, o autor de Balanço da bossa e outras bossas, [21] ponto de encontro entre as crônicas de Sérgio Porto e as letras da Bossa Nova, ajuda a esquadrinhar o pano de fundo social e comportamental da linguagem do futebol por meio das máximas e expressões. Linguajar simples, vida urbana, instantâneos do social são elementos encontrados em letras de Vinicius de Moraes, mas também nas de Noel Rosa, Wilson Batista e nas criações dos mosqueteiros e intérpretes dos craques e dos pernas de pau, nas autorias de Didi, João, Armando, Nelson, Neném, Gentil etc.


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As máximas na minha vida

A vivência com as máximas expressões do futebol brasileiro vem de longa data. Das arquibancadas do antigo e original Maracanã, das partidas de futebol de praia em Copacabana disputadas pelo Maravilha, aos treinos coletivos que tive o privilégio de assistir do Botafogo de Garrincha, Didi, Nilton Santos, Quarentinha, Amarildo, Gerson e outros.


Não poderia esquecer das caronas de ida e volta aos jogos com meus queridos tios João Saldanha e Raul Gabriel Alves, quase sempre com a presença do grande amigo Nélio Machado, das paradas obrigatórias nos jornais Última Hora, O Globo e Jornal do Brasil, nos quais Tio João datilografava suas crônicas. Tudo isso sedimentou na minha emoção e visão de mundo a beleza dessa forma de cultura popular. Da linguagem do futebol que brotava nos campos, nas torcidas e em seus principais personagens.


Quando concluí o curso de história, em 1975, já lecionava há dois anos, e nas aulas utilizava, quase sempre, a música, a moda, a alimentação, o futebol e os ditos populares como alegorias e adereços para atrair a atenção dos alunos. Eles gostavam.


Dez anos depois, coordenando o Projeto Memória do Esporte, tive a ideia de dirigir Quem não faz leva: As máximas e expressões do futebol brasileiro [22]. O texto e o roteiro desse documentário de 19 minutos, com imagens originais de João Saldanha, Neném Prancha, Sandro Moreyra e Francisco Horta, foram as principais fontes de inspiração para este texto que vocês acabaram de ler e o quinto capítulo da minha tese de doutorado.

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Sugiro assistirem este documentário, ressaltando apenas que as fitas originais foram perdidas pela Fundação Roberto Marinho, o que prejudicou a qualidade visual e auditiva. Na época foi exibido algumas vezes na TV Cultura e na TV Educativa. Nesta última, no programa do companheiro Milton Temer. São 19 minutos com imagens originais destes quatro grandes personagens. E narração do mestre Fernando Vanucci. Inesquecível. Vocês vão concordar.




Referências


1. MILLIET FILHO, Raul. Cenários e personagens de uma arte popular: Futebol brasileiro, hegemonia, narradores e sociedade civil. Tese de doutorado em História Social. São Paulo, USP, 2009.

2. MÁRIO FILHO. “Da necessidade do gozo”. Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, 12/9/1957.

3. BACZKO, Bronislaw. Lumieres de l’utopie. Paris, Payot, 1978.

4, 5, 6. MILLIET FILHO, Raul. Quem não faz leva. Documentário. Entrevista concedida por João Saldanha ao Projeto Memória do Esporte (Ucam/FRM/MEC), 1985.

7. Albert Camus, apud Nogueira; NOGUEIRA, Armando. Na grande área. Rio de Janeiro, Bloch, 1966. p. 42.

8. HOBSBAWM, Eric. Sobre história. São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 87.

9. RODRIGUES, Nelson. À sombra das chuteiras imortais. São Paulo, Cia. das Letras, 1993, p. 22.

10. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere, vol. 3. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2002, p. 343.

11. HOBSBAWM, Eric. Sobre história. São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 87.

12. Arthur Helps, apud Sevcenko; SEVCENKO, Nicolau. “A capital irradiante: Técnica, ritmos e ritos do Rio”. História da vida privada no Brasil. República: Da Belle Époque à Era do Rádio, vol. 3. São Paulo, Cia. das Letras, 1998, p. 514.

13. Assis, apud Neves; NEVES, Margarida de Souza. “História da crônica. Crônica da história”. In: RESENDE, Beatriz. Cronistas do Rio. 2. ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 2001, p. 21.

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14. Assis, apud Neves; NEVES, Margarida de Souza. “História da crônica. Crônica da história”. In: RESENDE, Beatriz. Cronistas do Rio. 2. ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 2001, p. 30.

15. Rodrigues, apud Mattos; MATTOS, Claudia. Cem anos de paixão. Rio de Janeiro, Rocco, 1997, p. 39.

16. PROENÇA, Ivan Cavalcanti. Futebol e palavra. Rio de Janeiro, José Olympio, 1981, p. 95.

17. BARTHES, Roland. A câmara clara. Lisboa, Edições 70, 1980, p. 47.

18. BENJAMIN, Walter. Magia, técnica, arte e política: Ensaios sobre literatura e arte da cultura. Trad. Sergio P. Rouanet. 3. ed. São Paulo, Brasiliense, 1987 (Obras Escolhidas, vol. I), p. 198.

19. Dias, apud Resende; DIAS, Ângela Maria. “Memória da cidade disponível: Foi um Rio que passou em nossas vidas – A crônica dos anos 60”. In: RESENDE, Beatriz. Cronistas do Rio. 2. ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 2001, p. 58.

20. DIAS, Ângela Maria. “Memória da cidade disponível: Foi um Rio que passou em nossas vidas – A crônica dos anos 60”. In: RESENDE, Beatriz. Cronistas do Rio. 2. ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 2001, p. 68.

21. CAMPOS, Augusto de. Balanço da bossa e outras bossas. 2. ed. São Paulo, Perspectiva, 1974.

22. < https://www.youtube.com/watch?v=W1lzD1X6Khc >